22.7.10

Requalificação

 
Brahea armata (Julho de 2007, no Príncipe Real)

Não será uma grande novidade, mas o Público diz hoje que já há árvores a morrer no Príncipe Real.
Rui Pedro Lérias, um Amigo do Príncipe Real, tem chamado a atenção para vários problemas que assolam aquele jardim. São as árvores jovens que definham, a falta de sombra, a poeira que não há meio de acamar, tudo isto conferindo um aspecto desolador a um jardim outrora fresco, frondoso e agradável. Parece que a ideia era requalificar*, um verbo que cada vez assusta mais, pois as intervenções a que assistimos tendem a alterar tudo para pior.





*O claustro do Mosteiro de Alcobaça também foi requalificado:

16.7.10

Ao Largo - II

O Festival ao Largo é um sucesso. Com os espectáculos a começarem quase sempre às dez da noite, pelas nove e meia já é difícil encontrar uma cadeira livre e as ruas à volta do Largo de São Carlos começam a encher-se. Mesmo quando as temperaturas baixam e o vento sopra mais forte, o público mantém-se firme e não arreda pé. Não será um fenómeno, mas antes uma prova de que existe muito boa gente que prefere ouvir música ao vivo a ficar em casa aconchegada. Gente que frequentaria certamente as salas de concerto se pudesse pagar os bilhetes. Velhos, novos, com o cão, com as crianças, todos vão Ao Largo e aderem sem preconceitos aos espectáculos.
Os concertos não têm sido todos excelentes. No entanto, tem havido música para quase todos os gostos e é de louvar que se ponha a prata da casa a tocar e a cantar, dando aos artistas a oportunidade de serem ouvidos por uma quantidade considerável de espectadores. A amplificação das vozes, por vezes, é um problema. Torna-as demasiado audíveis e põe em evidência as suas fraquezas, principalmente quando são acompanhadas ao piano.
Das minhas noites Ao Largo, destaco o concerto com a Orquestra Gulbenkian dirigida por Joana Carneiro (já mencionado aqui e aqui), a Noite Mozart, em que Ana Quintans provou estar no bom caminho (seria bom podermos vê-la no Teatro de São Carlos), e a apresentação dos espectáculos por Jorge Rodrigues, que nos predispõe para a música tal como fazia no Ritornello.
A noite de ontem, dedicada a Germana Tânger, foi memorável. Após a interpretação de "Langsamer Satz", de Anton Webern, pelo Quarteto Vianna da Motta, João Grosso representou o poema "Manucure", de Mário de Sá-Carneiro, como ele nunca tinha sido ouvido e visto antes. Finalmente Germana Tânger subiu ao palco e ali ficou, sentada, encantadora, a contar-nos histórias como se fôssemos íntimos de lá de casa. Aos 90 anos, lindíssimos, comoveu-nos com Sophia e com "Caranguejola", também de Sá-Carneiro:
- Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada...
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!
(continuar a ler)

14.7.10

Come un bel dì di maggio

André Chénier nasceu em Constantinopla, filho de um comerciante francês, e cedo partiu para a França com a família. Em 1789 era ainda um jovem de 26 anos. Entusiasmou-se pela Revolução mas acabou por ser traído por ela: criticou os seus excessos e ganhou com isso a prisão e a condenação à guilhotina pelo Tribunal Revolucionário. Poucos dias depois, o Terror de Robespierre chegava ao fim e, como Deus não dorme, dizem, também ele, Robespierre, ouviria o som da lâmina deslizando até encontrar o seu próprio pescoço.
Umberto Giordano inspirou-se na vida do poeta para compor a ópera "Andrea Chénier".

Je ne suis qu’au printemps, je veux voir la moisson;
Et comme le Soleil, de saison en saison,
Je veux achever mon année.
Brillante sur ma tige, et l’honneur du jardin,
Je n’ai vu luire encor que les feux du matin;
Je veux achever ma journée.
André Chénier, La Jeune Captive



Va, pensiero

O coro do Gran Teatre del Liceu saiu à Rambla em protesto contra as restrições orçamentais: corte de 5% nos salários e redução em 10% do número de trabalhadores do teatro.

7.7.10

4.7.10

Ao Largo - I (actualizado)

Joana Carneiro ©Ricardo Brito

«A energia que senti das pessoas que estão mais de 1 hora em pé para assistir a um concerto de música erudita só prova que a música toca qualquer pessoa e que é fundamental na educação de qualquer ser humano, como também na vida, na transformação e na salvação da nossa alma.», confessou Joana Carneiro em entrevista ao Festival ao Largo.

Eis duas pequenas amostras, com um grande agradecimento à Io.


3.7.10

Joana Sem Medo

No início tive medo. Logo após Jorge Rodrigues ter apresentado Joana Carneiro, a Orquestra Gulbenkian e as obras que íamos ouvir, levantou-se uma brisa que fazia voar as pautas e quase derrubava as estantes. Mas não. Joana segurou a batuta destemidamente e o seu gesto logo aplacou a tormenta e deu confiança e voz aos músicos.

Nunca antes tinha visto Joana Carneiro dirigindo uma orquestra e o fascínio foi imediato. Por um lado, uma grande sensibilidade aos detalhes mais líricos das partituras de Tchaikovsky. Por outro, um grande sentido dos tempos e da dinâmica. Depois, quanto mais os cabelos da pequena grande Joana esvoaçavam, levados pelo vento, mais ela aparecia aos nossos olhos possuída pelo som, alargando o gesto com autoridade. Ver Joana Carneiro é um regalo. Uma maestrina que não tem medo da partitura nem da orquestra. Existem actualmente outras mulheres que dirigem nas óperas de Viena, Londres, Berlim, Nova Iorque ou Lisboa. Não são muitas. E não sei se alguma delas já esteve em frente das Filarmónicas de Berlim ou de Viena, que até há poucos anos eram compostas exclusivamente por músicos do sexo masculino. Maestrinas, então, nem pensar. Acredito que seja aterrorizante, mais que não seja pela responsabilidade, subir ao púlpito e olhar para essas orquestras. Contudo, duvido que Joana tivesse medo delas.

As duas obras que constam no programa foram gravadas por Joana Carneiro com a Orquestra Gulbenkian em 2009. Pode ouvir curtos excertos aqui ou aqui.

Joana Carneiro em entrevista a José Fialho Gouveia, no programa "Bairro Alto".