Uma proposta para o Dia Mundial da Música: Maria João Pires com Trevor Pinnock e a Orquestra de Câmara da Europa, no concerto de 29 de Setembro na Cité de la Musique, em Paris. Vá a 2 para aceder ao Concerto para Piano nº 27 de Mozart e não perca os encores a quatro mãos, em 3, se quer perceber o que é o prazer de fazer música.
Como se esperava, o recital de Artur Pizarro - ontem no CCB (o primeiro da Integral da Obra para Piano de Chopin) - foi excelente. Não estive lá mas sei. A Antena 2 distribuiu-o pelos lares de quem não coube no Pequeno Auditório ou mora longe, por exemplo, no Algarve. Foi assim que sentimos juntos, eu aqui e a Gi lá, a grande vontade de partilhar esta minha viagem à descoberta de Chopin com o público português. Esteja, pois, atento às datas. Se o CCB não reprogramar a série de recitais de Artur Pizarro para o Grande Auditório, o que seria uma dádiva de inspiração divina, poderá sempre ouvi-los na Antena 2, que prometeu transmitir a Integral em directo.
Talvez prevendo as medidas de austeridade ontem anunciadas, o CCB programou a Integral da Obra para Piano de Chopin, por Artur Pizarro, no Pequeno Auditório. Foi muito bem pensado porque há que incentivar o público à poupança. Imagine os espectadores a afluírem em massa ao Grande Auditório; a quantidade de Euros que gastariam em bilhetes. Assim é um sossego. Não há, aforra-se, que o Natal não tarda aí.
A propósito do que a Io escreveu sobre "Così Fan Tutte" na Gulbenkian, lembrei-me do que disse Dame Kiri Te Kanawa recentemente numa entrevista que descobri algures: Some young singers are pressured to be thin and sing like the larger singers of the past but with "tiny bodies". Ide lá ouvir o que diz quem sabe do que fala.
Confesso: a versão de "Così Fan Tutte" apresentada na Gulbenkian aborreceu-me. Achei-a assim-assim.
Detalhando um bocadinho:
Fui recordando a excelência de Karl Böhm, ou Gardiner, há quase vinte anos no Teatro de São Carlos. Isto das bitolas é tramado.
A Orquestra Barroca de Freiburg é excelente mas faltou Mozart onde não precisávamos de Bach. Ainda dei comigo a pensar se Mozart não teria adormecido profundamente em várias ocasiões caso tivesse vindo a Lisboa.
René Jacobs dirigiu sempre muito baixinho, sem espessura, sem volume, plano, liso.
Houve alguns momentos bonitinhos da parte dos cantores mas nenhum deles foi notável. Também pensei que podiam estar com medo de cantar alto e destoar daquela sonoridade sedenta de uma boa dose de cafeína revigorante.
Gostei da solução cénica. Apesar de se tratar de uma versão de concerto, os cantores actuaram como se estivessem numa versão encenada. Mas não é isso que torna memorável um concerto. A um concerto vai-se ouvir.
Ouça-se a abertura de "Così Fan Tutte" dirigida por Gardiner, registada no Théâtre du Châtelet, na mesma produção que passou por Lisboa no milénio passado.
Ficámos a saber, pela boca do seu dono, que ela veio da Madeira e que gosta muito de viver ali, naquela encosta virada para o Sul, vigiando o Guincho. Os telemóveis, tal como as mais sofisticadas máquinas fotográficas, ainda não captam cheiros, o que é uma pena. Deixo aqui um pedido aos fabricantes: por favor, inventem máquinas fotográficas com nariz.
ADENDA: Leia-se o artigo de Isabel Coutinho no Público.
Nos próximos anos Martin André espera ter Verdi, Puccini e Mozart como pilares principais. Em 2013 comemora-se o nascimento de Wagner e Verdi e o director artístico pensa já na temporada que deve ser feita a longo prazo. Como acontece em qualquer teatro europeu.
I only ask that you treat me, the tree,
with the deepest reverence.
The water pour carefully.
A partir de um conto tradicional indiano, John Adams compôs uma ópera de grande beleza musical e poética que pudemos ver e ouvir ontem, ao fim da tarde, na Gulbenkian. Joana Carneiro, que o próprio Adams escolheu para sua assistente na estreia em 2006, dirigiu "A Flowering Tree" em Chicago, Paris e, agora, Lisboa. Coro, orquestra e solistas responderam-lhe na perfeição e deram-nos momentos sublimes. As sugestões visuais vinham impregnadas do aroma das plumérias.
"A Flowering Tree" é uma bela história de um príncipe que se apaixona por uma jovem que tem o poder de se transformar em árvore florida. Um dia o ritual corre mal e ela não consegue regressar totalmente à forma humana. Mulher-árvore, hostilizada e desprezada por todos, vagueia pelas ruas, canta por uma esmola. O príncipe, infeliz pelo seu desaparecimento, erra também pelas cidades, até que um dia o acaso lhes oferece o feliz reencontro.
O programa de sala, com sinopse detalhada e o libreto original e traduzido, está disponível em PDF.
John Adams em entrevista, a propósito da estreia de "A Flowering Tree"