8.7.12

Ensemble Berlin

Há dias que se transformam em tardes prodigiosas e é um privilégio estar neles e poder vivê-las. Comecemos pelo princípio: junto à estação de Sintra apanhámos um autocarro gentilmente disponibilizado pela organização do Festival que nos levou pela Estrada de Monserrate até à Quinta da Piedade, ao som de canções de Quim Barreiros e Marco Paulo.

©
A história da Quinta da Piedade ficará para sempre ligada a Olga Nicolis di Robilant Álvares Pereira de Melo, Marquesa de Cadaval, que nela viveu e nela recebeu muitos dos seus amigos artistas, principalmente músicos. Se Sintra tem um festival de música de prestígio internacional, deve-o essencialmente a Olga Cadaval. Foi ela quem o impulsionou.

É notável a lista de artistas que de algum modo estão relacionados com a Marquesa de Cadaval, quer porque ela os protegeu com o seu mecenato, quer porque eram seus amigos: Nelson Freire, Martha Argerich, Jacqueline Dupré, Daniel Barenboim, Benjamin Britten (compôs em sua honra a parábola religiosa "Curlew River"), Gabriele D’Annunzio, Marinetti, Giacomo Puccini, Cole Porter, Maurice Ravel, André Malraux, Coco Chanel, Arthur Rubinstein, Ygor Stravinski, Mstislav Rostropovitch, Ortega Y Gasset, Graham Green, Saul Bellow, Maurice Maeterlinck, Cosima Wagner, Olga Pratts, José Vianna da Motta, Vitorino Nemésio, Fernando Lopes Graça, Maria Germana Tânger... (leia-se o Historial da Marquesa de Cadaval

Detalhe da casa de fresco
A quinta parece ter sido criada a pensar no prazer da música, nos divertimentos para as tardes de Verão.
Quando passamos o portão, a casa do século XVIII fica à esquerda e à nossa frente, em baixo, avistamos o pequeno jardim de buxo e a casa de fresco ao fundo, com a fachada de azulejos barrocos.

À esquerda do jardim de buxo está o palco, ao qual os músicos acedem subindo alguns degraus e onde vemos mais azulejos do século XVIII e esculturas representando putti e outras figuras com instrumentos musicais. E foi o que ia passar-se aí que nos levou para os lados de Colares.

Antes do início, uma senhora da organização anunciou que os músicos pediam desculpa pelo facto de a bagagem de um dos colegas (o trompista Martin Owen) estar perdida e ele ter de se apresentar sem trajo de concerto, uma vez que tinha chegado a Portugal havia poucas horas. Posto isto, passou-se ao que verdadeiramente interessava: o Divertimento. Um belíssimo Divertimento para oboé, clarinete e fagote de Mozart, seguido de dois quintetos para piano e sopros, um de Beethoven e o outro de Mozart. Aos músicos do Ensemble de Berlim juntou-se o pianista Shai Wosner.

Ensemble Berlin (fotos da quinta © telemóvel do Miguel Jorge)

Uma formação de sopros não é à partida o que me atrai a um concerto, eu que sou mais de piano e cordas. Contudo, algo me dizia que este concerto havia de ser muito bom. Pois não foi. Foi apenas excepcional. Foi um grupo de amigos que resolveram vir de Berlim para tocar na Serra de Sintra e deixar-nos com pele de galinha e com os olhos húmidos. Foram muitos os momentos sublimes. Um deles, um dos mais sublimes de todos, foi o segundo andamento do quinteto de Beethoven, quando os instrumentos começam a conversar uns com os outros: o oboé pergunta, o fagote responde que sim, a trompa retorque, o clarinete conclui e o piano sublinha. O que fascina nestes músicos é a cumplicidade que os une, a interpretação perfeita - Beethoven é Beethoven e Mozart é Mozart -, a técnica irrepreensível. Com instrumentistas deste calibre, como não há-de a Orquestra Filarmónica de Berlim ser a melhor do Mundo, dei eu comigo a pensar.
Os passarinhos gostaram tanto que começaram a acompanhar a música com os seus sopros naturais do alto dos ciprestes.

No regresso a Sintra, uma agradável surpresa: não havia música no autocarro!

Agora vou escrever aqui os nomes dos músicos para não me esquecer:
Christoph Hartmann, oboé
Andreas Ottensamer, clarinete
Mor Biron, fagote
Martin Owen, trompa
Shai Wosner, piano

E amanhã mais logo há Artur Pizarro em Queluz.

6.7.12

O Anel de Spencer Tunick

A Ópera do Estado da Baviera mostra agora em vídeo como Spencer Tunick movimentou as mil e setecentas pessoas que fizeram o seu Ring em Munique.

5.7.12

Les Troyens

Este é o mês d'Os Troianos. Daqui a pouco, às 18h00 de Lisboa, o canal Mezzo transmite a encenação de David McVicar em directo de Covent Garden, com Bryan Hymel (Enée), Eva-Maria Westbroek (Didon), Anna Caterina Antonacci (Cassandre) e o maestro Antonio Pappano.

Já nos próximos dias 24 (19h30) e 26 (11h30) teremos oportunidade de ouver, também no Mezzo, a produção de Carlus Padrissa (La Fura dels Baus), apresentada no Palau de les Arts de Valência em 2009. A direcção musical foi de Valery Gergiev, Elisabete Matos foi Cassandre, Daniela Barcellona foi Didon e Lance Ryan foi Énée.

2.7.12

Götterdämmerung em directo

O novo Crepúsculo dos Deuses de Munique será transmitido por live-stream no próximo dia 15 de Julho, às 4 da tarde (hora de Lisboa), no sítio da Bayerische Staatsoper. É pôr na agenda.

Eis o trailer:

28.6.12

Novas de Milão

Carlos Cardoso e o maestro Marco Angius (© Accademia Teatro alla Scala)
























De Milão chegam-nos excelentes notícias. Carlos Cardoso, que integrará o elenco de "Don Carlo" em 2013 como Conte di Lerma, e que antes poderemos ouver na Gulbenkian, cantou há dias no Salão Nobre do Teatro alla Scala, acompanhado pelo pianista Michele D'Elia. Entre outras peças, Carlos Cardoso interpretou Spirto gentil, da ópera "La Favorita", de Donizetti, que fica aqui em baixo à disposição do caro leitor.

(A fotografia corresponde a um outro concerto, que teve lugar na sala principal do Teatro alla Scala, com a orquestra e cantores solistas da Accademia.)

   

27.6.12

O Mundo no Chiado



















Na próxima sexta-feira chega aí o Festival Ao Largo, a abrir com a música de cena para "Peer Gynt" e a prolongar-se por um mês com espectáculos quase todas as noites, sempre às 22h00, a serem apresentados, como manda a tradição, por Jorge Rodrigues. Vai haver ópera em versão de concerto ("Goyescas" [Dora Rodrigues, Mário João Alves e outros] e "Turandot", de Busoni [Sónia Alcobaça e Mário João Alves como Turandot e Kalaf]), dança, teatro e concertos de vários géneros musicais.

O programa é, resumidamente, o que se mostra a seguir. Todavia, se o descarregar, terá acesso a todos os detalhes e à introdução por César Viana, director artístico do festival.

          Junho

          29. 30. ..... Peer Gynt Edvard Grieg

          Julho

                 1. ..... Vivaldianas
                 2. ..... Barokksolistene Oslo
             3. 4. ..... Programa Chostakovitch
                 5. ..... António Rosado. Daniel Auner. Orquestra Sinfónica Portuguesa
             6. 7. ..... Carmen Companhia Antonio Gadés
                 9. ..... LISBOA espetáculo poético de rua
               10. ..... Junii Sibiului Cantares e dançares da Roménia
               11. ..... Alexandru Tomescu. Ernst Schelle. Filarmonia das Beiras
               12. ..... Pedro Carneiro. Orquestra de Câmara Portuguesa
         13. 14. ..... Goyescas Enrique Granados
               15. ..... As Damas do São Carlos
   19. 20. 21. ..... La Valse / Du Don de Soi Companhia Nacional de Bailado
               24. ..... Pedro Jóia. Vasco Pearce de Azevedo. Sinfonietta de Lisboa
               26. ..... Danças e Música de Sumatra
         27. 28. ..... Turandot Ferruccio Busoni
               29. ..... Orquestra Chinesa de Macau

26.6.12

Felizes Aniversários

Festejando o aniversário da estreia absoluta d'A Valquíria, a 26 de Junho de 1870 em Munique, damos também os parabéns a Claudio Abbado, que hoje sopra 79 velas. Auguri!

25.6.12

Bávaros a Nu


O Festival de Ópera de Munique já arrancou e traz com ele a nova produção d'O Anel do Nibelungo da Bayerische Staatsoper, assinada por Andreas Kriegenburg e dirigida por Kent Nagano. Para celebrar o acontecimento, Spencer Tunick despiu mil e setecentas pessoas, pintou-as de vermelho e dourado e instalou-as na Max-Joseph-Platz. Homens e mulheres, gordos, magros, novos e velhos, os Muniquenses mostraram as suas vergonhas nas ruas e nas praças de Munique.






Imagens © Bayerische Staatsoper (FB)








21.6.12

Hojotoho

Nos últimos dias, além do futebol, a exposição de Joana Vasconcelos em Versalhes tem dado bastante que falar (visita muito aconselhável). Das mais rasgadas loas às críticas mais ferozes, há de tudo. Em Le Figaro, para não irmos mais longe, encontramos três artigos que lhe são dedicados: 1, 2 e 3.

Pode-se gostar das obras de Joana Vasconcelos, ou não, ou de umas sim e de outras não. O que me parece muito o Portugal-dos-pequeninos do costume é o orgulho nacionalista exacerbado, por um lado, enquanto do outro lado da barricada os críticos demolem Joana Vasconcelos, a artista do regime. Sabemos que no futebol também é assim. Ora somos os maiores, ora Cristiano Ronaldo é uma fraude e José Mourinho não é tão bom como se apregoa por aí. A regra da pequenez repete-se e aplica-se quando se trata de pintores, de escritores, de músicos, de quase tudo e todos. Por muito sucesso que se tenha, nunca se é suficientemente bom, principalmente aos olhos de quem não é ninguém, nem nunca será.


Pérola de forma irregular

Lembra-nos muito bem o artdaily.org que o termo "Barroco" é de origem portuguesa. E barrocas são também as valquírias de Joana Vasconcelos, as douradas mais que as outras.

The work of Joana Vasconcelos can only resonate with the duality of the Versailles project itself, this ambivalence between the classical and the baroque styles made explicit by Louis Marin. Versailles is the result of a production, a construction that is at the same time real, symbolic and imaginary. “Imaginary” in that it reveals the “baroque”, fantastic and fanciful desire to show absolute power. There is a curious irony of history here if one remembers that the term “baroque” comes from the Portuguese “barroco” that means an irregularly shaped pearl.

"Valquíria Dourada" na Galeria das Batalhas (© artdaily.org)