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7.11.13

Aniversário #2

(©)

E parabéns à Grande Dame Gwyneth Jones, que nasceu há 77 anos numa terrinha no País de Gales chamada Pontnewynydd. Sem mais palavras.




8.10.13

Patrice Chéreau, 1944-2013

Ferruccio Furlanetto

Patrice Chéreau (© Libération)
De Chéreau, fica-me acima de tudo o mítico Anel de 1976/80 em Bayreuth e a Isolde de Waltraud Meier em Milão, mas também a extraordinária encenação que fez para a peça I am the Wind, que o Festival de Almada em boa hora mostrou. A busca da essência contra o espalhafato circense.
Chéreau faleceu ontem em Paris, vítima de cancro.




8.12.11

Grande Waltraud

Como Isolde, na encenação de Patrice Chéreau para o Teatro alla Scala
(a imagem já não sei de onde veio)

Numa entrevista publicada há já alguns meses, Waltraud Meier disse o que tinha de ser dito.
Excertos escolhidos, abreviados e em tradução rápida e livre:

Die Welt: Possui uma presença cénica e doseia os gestos de tal modo que, muitas vezes, um simples olhar diz muito mais que um movimento largo.
Waltraud Meier: Isso vem-me do pensamento. O pensamento comanda o corpo. É um processo consciente, uma observação. Os Americanos chamam-lhe "awareness". E depende sempre da situação: o que recebo dos colegas, do cenário, do maestro, das luzes, do guarda-roupa, etc. Trata-se de repensar o texto e dizê-lo fresco. Fico muitas vezes surpreendida pelo modo como o ponho em prática.
(...)
Aprendi muito com grandes encenadores como Klaus-Michael Grüber. Uma revelação foi não antecipar as emoções (...). Há uma outra escola, segundo a qual devemos antecipá-las, de que me afastei porque o espectador precisa de tempo para perceber. Veja-se o exemplo das longas frases de Wagner: só no final, quando chega o verbo, é que se entende o significado da frase. É incompreensível que reajamos cedo de mais a certas palavras-chave.
(...)

DW: É a melhor encenadora de si própria?
WM: Não. De modo nenhum. Fico apenas triste quando não tenho quem me ajude. Gosto muito de trabalhar com Patrice Chéreau. Com ele surge uma arte intemporal, porque ele parte do texto e da psicologia das personagens - para mim, o essencial.

DW: Após épocas tão diferentes como as dos castrati, das divas, dos compositores, dos maestros, reclama-se agora contra o Regietheater ("teatro de encenador"). Em que ponto está a Ópera actualmente?
WM: Quando me falam hoje de Regietheater apanho uma fúria. Sou do tempo do Regietheater, que nasceu há uns trinta ou trinta e cinco anos com pessoas como Götz Friedrich e outros. Isso era Regietheater! O que vemos actualmente nos palcos não merece esse nome. Já há pouquíssima gente com a preparação suficiente para esse trabalho. Encenar é mais que ter umas quantas fantasias sobre uma peça. É analisar a música, compreender a filosofia, investigar a psicologia. Uma mão-cheia de imagens espectaculares para enfeitiçar não me chega. Esta arbitrariedade pós-moderna desperta no público apenas tédio. O que vemos actualmente nos palcos são clichés novos a substituírem clichés antigos.

DW: Do que sente mais a falta na Ópera, actualmente?
WM: Da seriedade, da profundidade. E de sensações fortes. Pense no grandioso Anel do Nibelungo de Harry Kupfer em Bayreuth, com as suas imagens intensas, em que os elementos da obra de arte total estão interligados. Hoje, pelo contrário, muito do que se faz é apenas banal, superficial, kitsch moderno.
(...)

DW: Em que mudou a audição musical?
WM: As pessoas que nos ouvem já só raramente cantam ou tocam um instrumento. Ajuda muito saber como se produz um som, daí ser tão importante a educação musical. Repare: de que falam as pessoas depois da Ópera? Apenas do que viram. Já quase não falam do que ouviram. Esta sobrevalorização do elemento visual é incrivelmente patética!
(...)

Waltraud Meier como Kundry, na encenação de "Parsifal" por Harry Kupfer:

30.11.10

Peter Hofmann (1944-2010)

Em 1976, na produção de Patrice Chéreau para a comemoração do centenário d'O Anel do Nibelungo, em Bayreuth,  coube a Peter Hofmann o papel de Siegmund (em "Die Walküre"). Ainda em Bayreuth interpretou Parsifal, Lohengrin e Tristan, mas a sua carreira de tenor heróico não seria longa. Nos anos 1980/90, Peter Hofmann passou por vários géneros mais ligeiros, incluindo o rock e o teatro musical, e terminou oficialmente a carreira em 2004.
Os últimos anos da sua vida foram acompanhados pela doença de Parkinson, pela pobreza e pelas pensões sociais (segundo um artigo em Der Tagesspiegel de 2006). Faleceu na noite passada.





10.6.08

Dia Mundial de Tristão e Isolda

Há 143 anos, a 10 de Junho de 1865, assistia-se à estreia mundial de "Tristan und Isolde", com Malvina (Garrigues) Schnorr von Carolsfeld no papel da princesa da Irlanda.

Waltraud Meier, Mild und leise (Liebestod), em Dezembro de 2007, no Teatro alla Scala. Encenação de Patrice Chéreau e direcção musical de Daniel Barenboim.

6.6.07

Ode à Primavera - Winterstürme

No primeiro acto de "A Valquíria", Siegmund e Sieglinde, gémeos sem o saberem, conhecem-se e apaixonam-se. Wagner recorreu à mitologia nórdica para compor "O Anel do Nibelungo" e fez, aqui, uma alegoria aos amores proibidos. A Primavera liberta o Amor, seu irmão, tal como Siegmund liberta Sieglinde, presa a um marido aterrorizador.
O libreto original é de Richard Wagner.
A produção é de Patrice Chéreau (1976, Bayreuth), Peter Hofmann e Jeannine Altmeyer são os gémeos e Pierre Boulez dirige.

Siegmund:
Winterstürme wichen dem Wonnemond,
in mildem Lichte leuchtet der Lenz;
auf linden Lüften leicht und lieblich,
Wunder webend er sich wiegt;
durch Wald und Auen weht sein Atem,
weit geöffnet lacht sein Aug'.
Aus sel'ger Vöglein Sange süss er tönt,
holde Düfte haucht er aus;
seinem warmen Blut entblühen wonnige Blumen,
Keim und Spross entspringt seiner Kraft.
Mit zarter Waffen Zier bezwingt er die Welt;
Winter und Sturm wichen der starken Wehr:
wohl musste den tapfern Streichen
die strenge Türe auch weichen,
die trotzig und starr uns trennte von ihm.
Zu seiner Schwester schwang er sich her;
die Liebe lockte den Lenz:
in unsrem Busen barg sie sich tief;
nun lacht sie selig dem Licht.
Die bräutliche Schwester befreite der Bruder;
zertrümmert liegt, was je sie getrennt;
jauchzend grüsst sich das junge Paar:
vereint sind Liebe und Lenz!

Sieglinde:
Du bist der Lenz, nach dem ich verlangte
in frostigen Winters Frist.
Dich grüsste mein Herz mit heiligem Grau'n,
als dein Blick zuerst mir erblühte.
Fremdes nur sah ich von je, freundlos war mir das Nahe;
als hätt' ich nie es gekannt, war, was immer mir kam.
Doch dich kannt' ich deutlich und klar:
als mein Auge dich sah, warst du mein Eigen;
was im Busen ich barg, was ich bin,
hell wie der Tag taucht' es mir auf,
wie tönender Schall schlug's an mein Ohr,
als in frostig öder Fremde zuerst ich den Freund ersah.


Siegmund:
As tempestades do Inverno cederam ao mês de Maio,
a Primavera brilha com luz suave.
Embalada pela brisa, leve e graciosa,
ela tece os seus milagres.
O seu sopro corre por florestas e prados,
os olhos sorriem bem abertos.
Soa docemente no canto dos pássaros,
exalando um perfume fresco.
Do seu sangue quente nascem flores maravilhosas,
botões e rebentos brotam pelo seu poder.
Domina o mundo com a arma da beleza.
O Inverno e a tempestade cedem ao seu ataque;
também a porta que teimosamente nos separava dela
não resistiu aos seus golpes corajosos.
Para o irmão ela veio correndo,
o Amor chamou a Primavera.
Ele, que andava escondido dentro de nós,
agora ri, feliz perante a luz.
A irmã e noiva libertou o irmão,
ruiu tudo o que os separava.
O jovem casal saúda-se em êxtase,
estão unidos o Amor e a Primavera!

Sieglinde:
Tu és a Primavera, que eu tanto desejava
no tempo das geadas.
O meu coração saudou-te, com um tremor divino,
quando o teu olhar me tocou.
Vivia rodeada de estranhos, sem amigos,
como se não conhecesse nada.
Mas, a ti, reconheci-te claramente:
quando os meus olhos te viram, soube que eras meu.
Tudo o que escondia dentro de mim, tudo o que sou,
tonou-se límpido como o dia,
soou-me no ouvido como um trovão,
quando vi pela primeira vez um amigo
neste sítio inóspito e gelado.
(...)


16.3.07

Die Walküre - acto I

Ele é Peter Hofmann, ela é Jeannine Altmeyer (uma vez foi Brünnhilde em São Carlos). Siegmund e Sieglinde, o par de gémeos apaixonados, no final do I acto de "A Valquíria". Como deve ser. Ainda Bayreuth, Chéreau e Boulez a dirigir.

Fogo mágico em Bayreuth

CENA FINAL DE "A VALQUÍRIA"
Brünnhilde era Gwyneth Jones e Wotan era Donald McIntyre. Patrice Chéreau encenou e decidiu que quando Brünnhilde adormece nos braços do pai, tem mesmo de haver fogo mágico.

WOTAN (Wotans Abschied)
Leb' wohl, du kühnes, herrliches Kind!
Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muss ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruss dich mehr grüssen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muss ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels!
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!

Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuss dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floss:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuss!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muss es scheidend sich schliessen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küsst er die Gottheit von dir!



(gabrilu06)

Wotan
Adeus, minha criança temerária e magnífica!
Tu, o orgulho sagrado do meu coração!
Adeus! Adeus! Adeus!
Tenho de te abandonar
e não voltarei a dar-te, com amor, a saudação.
Não tornarás a cavalgar a meu lado,
nem me trarás mais o hidromel.
Tenho de te perder, a ti, que eu amo,
tu, a alegria dos meus olhos.
Que arda aqui um fogo nupcial,
como nunca ardeu antes!
Que as chamas incandescentes incendeiem o rochedo
e com o seu terror afastem os medrosos.
Que os cobardes fujam do rochedo de Brünnhilde!
Só um libertará a noiva,
o que for mais livre que eu, o Deus!

Este par de olhos brilhantes,
que tantas vezes acariciei,
quando a tua valentia merecia um beijo,
quando um louvor aos heróis
fluía dos teus lábios de criança;
Este par de olhos luminosos,
que nas tempestades me sorria,
quando o desespero me consomia o coração,
quando o meu desejo procurava os prazeres do mundo
por caminhos tortuosos;
Que uma última vez eu os possa beijar,
com o último beijo do adeus!
Que ao homem feliz brilhe a sua estrela,
para o infeliz imortal ela apaga-se.
Assim se afasta o Deus de ti,
roubando-te a divindade com este beijo!

Loge, hör'! Lausche hieher!
Wie zuerst ich dich fand, als feurige Glut,
wie dann einst du mir schwandest,
als schweifende Lohe;
wie ich dich band, bann ich dich heut'!
Herauf, wabernde Lohe,
umlodre mir feurig den Fels!
Loge! Loge! Hieher!
Wer meines Speeres Spitze fürchtet,
durchschreite das Feuer nie!



(TheChromiumDragon)

Loge, ouve! Aparece!
Como te vi pela primeira vez, como labareda,
como uma vez me desapareceste,
chama ardente.
Porque te submeti, agora te invoco!
Sobe, chama mágica,
Envolve o rochedo de fogo!
Loge! Loge! Aqui!
Aquele que temer a ponta da minha lança
jamais atravessará este fogo!