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5.7.14

Irene Linda

Ontem à noite Irene Lima tocou Don Quixote, de Richard Strauss, com a OSP no Festival ao Largo. Violoncelista de alto calibre, como é sabido, é pena não a vermos mais vezes como solista. Se não foi, não perca logo às 21h30. Ela repete.

E o valkirio hoje tem direito ao seu momento "Caras", porque Irene Lima estava linda, com o vestido que Pilar del Rio usou em Estocolmo na cerimónia de entrega do Nobel a Saramago. Foi também esse mesmo vestido que Irene usou, a pedido de Pilar del Rio, quando tocou Bach na cerimónia fúnebre de José Saramago que teve lugar na Câmara Municipal de Lisboa.

Em O Evangelho Segundo Jesus Cristo, Maria Madalena diz "Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti", ao que Jesus responde "Quero estar onde a minha sombra estiver, se lá é que estiverem os teus olhos". São estas as palavras bordadas na base do vestido.

17.3.12

Saramago lê Saramago

Há dias, a propósito da presença de Domenico Scarlatti na corte de D. João V, como professor de música da infanta Maria Bárbara, Jorge Rodrigues contou a história de uma entrevista que Saramago lhe deu na sua casa em Lisboa. Após cerca de uma hora de conversa, Saramago disse-lhe, falando da cena d'O Memorial do Convento em que Domenico Scarlatti e Frei Bartolomeu de Gusmão dialogam sobre música, que essas eram das páginas de que ele mais gostava em toda a sua obra. Pegou no livro e perguntou-lhe "Ó Jorge, quer que eu leia?".

Saramago leu e o Jorge gravou:

    

17.11.08

Palavras que o vento não leva


"(...) E nós? Falamos pela mesma razão que transpiramos? Apenas porque sim? O suor evapora-se, lava-se, desaparece, mais tarde ou mais cedo chegará às nuvens. E as palavras? Aonde vão? Quantas permanecem? Por quanto tempo? E, finalmente, para quê? São perguntas ociosas, bem o sei, próprias de quem cumpre 86 anos. Ou talvez não tão ociosas assim se penso que meu avô Jerónimo, nas suas últimas horas, se foi despedir das árvores que havia plantado, abraçando-as e chorando porque sabia que não voltaria a vê-las. (...)"

José Saramago, 86 anos

17.10.08

Ayasofya








"(...) Se eu dissesse a um cristão ou a um muçulmano que no universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas, e que Deus, seja ele Alá ou o outro, não poderia ter feito isto, melhor ainda, não teria nenhum motivo para fazê-lo, responder-me-iam indignados que a Deus, seja ele Alá ou o outro, nada é impossível. Excepto, pelos vistos, diria eu, fazer a paz entre o Islão e o Cristianismo, e, de caminho, conciliar a mais desgraçada das espécies animais que se diz terem nascido da sua vontade (e à sua semelhança), a espécie humana, precisamente.
(...)
Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. (...)"

(Excertos de "Deus como problema", em "O Caderno de Saramago")


Basílica de Santa Sofia, ou da "Santa Sabedoria", na Wikipedia.