No dia 4 de Setembro de 2006,
Astrid Varnay morria, aos 88 anos de idade. Dela dizia Wieland Wagner, neto do compositor, a propósito das encenações despojadas que produzia em Bayreuth nos anos '50: "Para que quero uma árvore no palco, se tenho Astrid Varnay?"
A sua estreia profissional deu-se em 1941, quando substituiu Lotte Lehmann no papel de Sieglinde (
Die Walküre, de Wagner), na Metropolitan Opera de Nova Iorque. Seis dias depois, era Helen Traubel quem estava doente, sendo substituída por Varnay no papel de Brünnhilde. A partir daí, transformou-se numa das principais intérpretes wagnerianas: cantou Isolde, Kundry (
Parsifal), Ortrud (
Lohengrin), mas também a Elektra de Srauss. Pelo poder de enfeitiçar o público com a sua presença vocal, figura no panteão das grandes cantoras, perto de Kirsten Flagstad e Birgit Nilsson.
O "Despertar de Brünnhilde"*:
Estamos perto do final do III acto de
Siegfried. Siegfried atravessou as chamas que envolvem o rochedo onde Brünnhilde dorme, desde o beijo da despedida de seu pai, o deus Wotan (no final de
A Valquíria, aqui e
ali). O jovem herói nunca vira uma mulher antes e fica fascinado com aquela beleza. Pensa tratar-se de um guerreiro. Beija-o na tentativa de o acordar e só então percebe, assustado, que afinal não é um homem. Brünnhilde acorda...
BRÜNNHILDE
Heil dir, Sonne!
Heil dir, Licht!
Heil dir, leuchtender Tag!
Lang war mein Schlaf;
ich bin erwacht.
Wer ist der Held, der mich erweckt'?
Salve, Sol!
Salve, Luz!
Salve, dia glorioso!
O meu sono foi longo;
acordei.
Quem é o herói que me acordou?
SIEGFRIED
(von ihrem Blicke und ihrer Stimme
feierlich ergriffen, steht wie festgebannt)
Durch das Feuer drang ich,
das den Fels umbrann;
ich erbrach dir den festen Helm:
Siegfried bin ich, der dich erweckt'.
(impressionado com o olhar e a voz de Brünnhilde,
fica petrificado)
Penetrei o fogo
que arde em torno do rochedo;
livrei-te do sólido elmo:
O meu nome é Siegfried. Fui eu quem te acordou.
BRÜNNHILDE
(hoch aufgerichtet sitzend)
Heil euch, Götter!
Heil dir, Welt!
Heil dir, prangende Erde!
Zu End' ist nun mein Schlaf;
erwacht, seh' ich:
Siegfried ist es, der mich erweckt!
(sentando-se)
Salve, Deuses!
Salve, Mundo!
Salve, Terra brilhante!
O meu sono chegou ao fim;
acordada, vejo:
Foi Siegfried quem me acordou!
SIEGFRIED
(in erhabenste Verzückung ausbrechend)
O Heil der Mutter, die mich gebar;
Heil der Erde, die mich genährt!
Daß ich das Aug' erschaut,
das jetzt mir Seligem lacht!
(irrompendo num arrebatamento sublime)
Salve, ó Mãe, que me deu à luz!
Salve, ó Terra, que me alimentou!
Para eu ver, feliz,
estes olhos que me riem!
BRÜNNHILDE
(mit größter Bewegtheit)
O Heil der Mutter, die dich gebar!
Heil der Erde, die dich genährt!
Nur dein Blick durfte mich schau'n,
erwachen durft' ich nur dir!
(com grande comoção)
Salve, ó Mãe, que te deu à luz!
Salve, ó Terra, que te alimentou!
Só o teu olhar me poderia ver,
Só para ti poderia acordar!
(Beide bleiben voll strahlenden Entzückens
in ihren gegenseitigen Anblick verloren)
O Siegfried! Siegfried! Seliger Held!
Du Wecker des Lebens, siegendes Licht!
O wüßtest du, Lust der Welt,
wie ich dich je geliebt!
Du warst mein Sinnen,
mein Sorgen du!
Dich Zarten nährt' ich,
noch eh' du gezeugt;
noch eh' du geboren,
barg dich mein Schild:
so lang' lieb' ich dich, Siegfried!
(ambos ficam num encanto resplandecente,
perdidos no olhar um do outro)
Ó Siegfried! Siegfried! Herói bem-aventurado!
Tu acordas a vida, luz vitoriosa!
Se tu soubesses, alegria do mundo,
como eu sempre te amei!
Tu eras o meu pensamento,
a minha inquietação eras tu!
Cuidei de ti,
antes de o sentires.
Antes de nasceres,
protegeu-te o meu escudo.
Amo-te há todo este tempo, Siegfried!
*
Brünnhildes Erwachen, com Wolfgang Windgassen, tenor, e a Orquestra Sinfónica da Rádio da Baviera, dirigida por Hermann Weigert, em 1954.