9.10.08

WebOpera - "Siegfried" online

Novidade de última hora:
A ópera "Siegfried" vai ser transmitida online, nos sites do Teatro de São Carlos e da RTP. Hoje, 9 de Outubro, às 18h30 (transmissão piloto), e no próximo dia 12, Domingo, às 16h00. Aqui está uma boa notícia para quem mora longe e não pode deslocar-se ao Largo de São Carlos. Também estão previstas as transmissões de "Das Rheingold" e "Die Walküre" pela Internet, podendo o telespectador seguir toda a história contada por Graham Vick (mesmo que os episódios não venham na ordem correcta).

(Clique sobre a imagem para aumentar)

www.saocarlos.pt
www.rtp.pt

8.10.08

Der "Ring" des Graham Vick

Aplaudi a récita de "Siegfried", pelo esforço e pela coragem dos cantores. Eles entregam-se de corpo e alma e dão tudo o que têm (e o que não têm) para que Graham Vick saia daqui em glória, mesmo prejudicando as suas prestações vocais.

Stefan Vinke não será um verdadeiro tenor heróico e, na cena em que forja a espada, como em vários outros momentos, a voz estica para lá do limite das suas capacidades, deixando-nos a duvidar se ele aguentará mais dois actos e mais uma série de récitas. Aguenta mais dois actos, sim, graças a uma entrega total ao papel e à interpretação que Vick pretende dele. Mas na cena da floresta, quando se questiona sobre os pais que nunca viu, como seriam eles (Aber, wie sah meine Mutter wohl aus?), falta a beleza e o lirismo na voz. Noutros momentos cruciais, quando atinge o rochedo de Brünnhilde no III acto (Selige Öde auf sonniger Höh'!) e durante o dueto final, a voz já está cansada de tanta correria. Já lá iremos.

Johann Werner Prein já tinha demonstrado a sua competência como Alberich ("O Ouro do Reno") e como "médico" na produção memorável de "Wozzeck" no CCB. Apresenta-se novamente no papel do nibelungo e em excelente forma.

Uma óptima surpresa foi Colin Judson. Cénica e vocalmente, talvez seja ele o cantor mais convincente desta produção. É um verdadeiro tenor de carácter e a pele do anão Mime assenta-lhe como uma luva.

Samuel Youn parece-me ser o melhor dos três Wotans que pisaram a arena do Teatro de São Carlos. Apesar da muito discutível visão que Vick nos dá sobre a personagem sábia e nobre que é Wotan, fazendo dele um bêbedo andrajoso e repelente (em "Siegfried" ele é um Wanderer, um homem que caminha sem cessar, perturbado, ansioso, desesperado, um deus que já não controla os acontecimentos), Youn cumpre bem o seu papel e consegue emocionar quando se encontra com Erda no início do III acto.

Susan Bullock já tinha impressionado n'"A Valquíria" e acorda bem na cena final de "Siegfried", após alguns percalços técnicos. Algo terá corrido mal no sistema hidráulico(?) na récita de 6 de Outubro. Siegfried devia subir a rampa que não abriu convenientemente, o que obrigou a uma curta interrupção e ao encolher de ombros do maestro Letonja, que não percebia o que se estava a passar. Siegfried entrou em cena afogueado, não por ter atravessado as chamas do fogo mágico que não existe, mas por ter tido de correr desde o interior da plataforma/palco até surgir pelo lado do palco/plateia. Lá cantou, quase sem fôlego, Selige Öde auf sonniger Höh'! e acordou Brünnhilde, retirando-a finalmente do saco mortuário. E aqui esvai-se o encanto da cena. Para que não nos esqueçamos que Siegfried é filho dos gémeos Siegmund e Sieglinde (n'"A Valquíria" de São Carlos interpretados por um cantor negro e por uma cantora loura), Stefan Vinke mantém-se durante várias horas em cena com metade do corpo pintada de preto. No final, a cor começa a desbotar e a pobre Brünnhilde, apesar dos cuidados, fica mascarrada. Supostamente eles estão apaixonados e abraçam-se e beijam-se com fervor, mas o que o público pressente é o medo que os cantores têm do ridículo.

Uma nota sobra a orquestra. Que não é wagneriana, já o sabemos. Que tem deslizes e dificilmente transmite as cores e as texturas da partitura, não nos surpreende. Contudo, esteve bem em alguns momentos, principalmente no III acto, cujo magnífico prelúdio foi alegremente prejudicado por mais uma ideia peregrina do encenador. O público é literalmente distraído por figurantes, interpretando velhos que saem do palco pelas frisas, incomodando quem lá está sentado e perturbando a audição. Talvez tenha sido o melhor momento da orquestra, assim desperdiçado devido à despudorada falta de respeito de Vick pelo compositor. Não se limitando a deturpar as características das personagens e dos ambientes exigidos pelo libreto de Richard Wagner, o encenador acrescenta sons e figurantes desnecessários que inibem a fruição musical. A gaiola metálica que representa a gruta de Mime no I acto é mais um objecto ruidoso e irritante. O "Anel" de Lisboa é, cada vez mais, o "Anel" de Graham Vick.

Muito bem esteve o solista que toca a trompa de Siegfried no II acto.


Siegfried aprende a linguagem dos pássaros (daqui)


6.10.08

3.10.08

Grande Auditório

Com a abertura da nova temporada, o Grande Auditório de Jorge Rodrigues está de volta na coluna à direita, ou no sítio da Fundação Calouste Gulbenkian. Para estarmos em dia com as propostas da semana.

30.9.08

Notung! Notung!

É logo à tarde, pelas 18h30, que estreia "Siegfried" em São Carlos. O papel do tenor é um dos mais difíceis do reportório, exigindo uma enorme força e capacidade de resistência devido à sua extensão e à tessitura ([...]throughout the entirety of Wagner's Ring, the music written for the role of Siegfried ranges from C#3 to C5, but the tessitura is described as high because the tenor phrases are most often in the range of C4 to A4.).
Stefan Vinke vai ser o nosso Siegfried.

Foto de ensaio na newsletter do Teatro de São Carlos


O Heldentenor (tenor heróico) Lauritz Melchior canta aqui um excerto do I acto: Notung! Notung! Siegfried pega nos pedaços da espada do seu pai, Siegmund, e forja "Notung", a nova espada com que matará o dragão Fafner, guardião do anel, e quebrará a lança de Wotan. O Homem novo liberta-se do antigo poder dos deuses e da ordem estabelecida.

(Onegin65)

Notung! Notung! Neidliches Schwert!
Was mußtest du zerspringen?
Zu Spreu nun schuf ich die scharfe Pracht,
im Tiegel brat' ich die Späne.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Blase, Balg! Blase die Glut!
Wild im Walde wuchs ein Baum,
den hab' ich im Forst gefällt:
die braune Esche brannt' ich zur Kohl',
auf dem Herd nun liegt sie gehäuft.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Blase, Balg! Blase die Glut!
Des Baumes Kohle, wie brennt sie kühn;
wie glüht sie hell und hehr!
In springenden Funken sprühet sie auf:
Hohei! Hohei! Hohei!
Zerschmilzt mir des Stahles Spreu.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Blase, Balg! Blase die Glut!
(...)
Notung! Notung! Espada desejada!
Por que te partiste?
Reduzi a tua forte lâmina a farripas,
neste cadinho aqueço a tua limalha.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Sopra fole! Sopra o lume!
Uma árvore selvagem crescia na floresta.
Fui eu quem a abateu:
o seu tronco reduzi ao carvão
que agora está sobre este fogão.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Sopra fole! Sopra o lume!
O carvão dessa árvore como arde bem,
que lume espevitado e forte!
Crepitam alegres fagulhas:
Hohei! Hohei! Hohei!
Façam fundir-se toda essa limalha.
Hoho! Hoho! Hohei! Hohei! Hoho!
Sopra fole! Sopra o lume!
(...)

(Tradução do libreto por João Paulo Santos, para efeitos de legendagem e publicação no programa)


Siegfried forja a espada
Schloss Neuschwanstein

Entrevista do encenador Graham Vick ao Diário de Notícias.

26.9.08

ÓPERA AO LARGO - ópera em grande ecrã


Lê-se no sítio do Teatro Nacional de São Carlos que haverá duas transmissões em directo da ópera "Siegfried" em grande ecrã, no Largo de São Carlos. As duas primeiras óperas da tetralogia "O Anel do Nibelungo" serão também projectadas. Portanto, quem não viu "O Ouro do Reno" e "A Valquíria" na encenação de Graham Vick pode aproveitar esta oportunidade. A entrada é livre e o calendário é o seguinte:


Dia 9 de Outubro


13:00h - Making of Das Rheingold
17:30h - Making of Das Rheingold
18:30h - Siegfried - Transmissão em directo (com legendas)

Dia 10 de Outubro

13:00h - Making of Das Rheingold
17:30h - Making of Das Rheingold
20:00h - Projecção da produção Die Walküre na íntegra

Dia 11 de Outubro

15:00h - Making of Das Rheingold
16:00h - Projecção da produção Das Rheingold na íntegra

Dia 12 de Outubro

15:00h - Making of Das Rheingold
16:00h - Siegfried - Transmissão em directo (com legendas)

16.9.08

Santa Isabel

A rainha Santa Isabel era sobrinha-neta de uma outra santa que também transformou pão em rosas: Isabel (Elisabete) da Hungria, ou da Turíngia. O pai da nossa rainha, Pedro III de Aragão, era filho de Jaime I de Aragão e de Violante da Hungria, irmã da santa que vem hoje ao caso.
Na ópera "Tannhäuser", de Richard Wagner, a personagem de Elisabeth é inspirada na jovem princesa húngara, que foi levada aos quatro anos de idade para a corte da Turíngia para casar com o filho do Landgraf (título correspondente a "conde" no Sacro Império Romano-Germânico). Elisabete enviuvou cedo e recusou todos os pretendentes que se propuseram casar com ela. Morreu com vinte e quatro anos e foi canonizada em 1235.

O Torneio dos Cantores em Wartburg, de Joseph Aigner
(Schloss Neuschwanstein)

Diz a lenda que o Landgraf Hermann promoveu no castelo de Wartburg, por inícios do séc. XIII, um grande torneio de menestréis: o "Sängerkrieg". Na ópera, o Landgraf é tio de Elisabeth. Com liberdades poéticas, Wagner convidou também Tannhäuser para se juntar aos trovadores que participaram nesse festival da canção. Na versão wagneriana, bem diferente dos factos históricos, Tannhäuser decide deixar os amores carnais de Vénus e é convencido pelos amigos a entrar na competição: Elisabeth ama-o. Começa o II acto e ela saúda a sala onde terá lugar o concurso, feliz por saber que Tannhäuser está de volta.

Gundula Janowitz: Dich, teure Halle

(link-vaimusic)

Elisabeth:
Dich, teure Halle, grüß' ich wieder,
froh grüß' ich dich, geliebter Raum!
In dir erwachen seine Lieder,
und wecken mich aus düstrem Traum.
Da er aus dir geschieden,
wie öd' erschienst du mir!
Aus mir entfloh der Frieden,
die Freude zog aus dir.
Wie jetzt mein Busen hoch sich hebet,
so scheinst du jetzt mir stolz und hehr;
der dich und mich so neu belebet,
nicht länger weilt er ferne mehr.
Sei mir gegrüßt! sei mir gegrüßt!

15.9.08

Donas Elviras

Tamara de Lempicka, Auto-retrato com Bugatti verde (1925)

Será que alguém já entendeu o porquê da insistência no encerramento da Praça do Comércio ao trânsito todos os domingos? O Cais das Colunas ainda não está pronto — as obras devem continuar até Dezembro — e não há lá nada que seja chamariz para os lisboetas, que os empurre para um passeio agradável, ali, à beira-Tejo, nas tardes que são alternadamente de sol abrasador ou de ventania tempestuosa. Os automóveis colam-se uns aos outros nas ruas que se dirigem para o Terreiro do Paço e torna-se mais difícil atravessar a Baixa, entre o Cais do Sodré e Santa Apolónia, que numa sexta-feira em hora-de-ponta. Às quatro da tarde a praça está às pombas e os seis ou sete humanos que por lá passam vão abrigados sob as arcadas. A rua entre a praça e o Tejo não convida, nem há carros nem há gente, e as ruas da Baixa engarrafam-se enquanto o ar é aquecido pelos tubos de escape. Ao menos que fossem de Donas Elviras, como estas que estavam ontem em Cascais.