14.4.10

Vale Tudo

Cardeal Bertone


Andou a ICAR toda a vida a querer fazer passar a ideia de que os seus sacerdotes eram assexuais, voluntariamente celibatários e castos por opção - discutir a sexualidade de um padre era como discutir a dos anjos -, para agora ter de assumir publicamente que eles afinal são homens, logo, iguais às outras pessoas. Sentem desejos, talvez paixão, inveja, ciúme, enfim, tudo o que é natural que se sinta sendo humano. Ou seja: eles, membros do clero, estão acima de todos nós, mas, se convier, para salvar a honra do convento, deixam de estar, transformando-se em pessoas iguais a toda a gente.

Até aí, estamos de acordo: eles são iguais a toda a gente e deveriam ter direito, também, à sua vida sexual. Já não me parece tão normal que altos funcionários da dita instituição venham agora dar tudo por tudo, numa tentativa desesperada de ficar bem na fotografia, comparando o incomparável (a carta de um amigo judeu do pregador oficial do papa veio mesmo a calhar, o pior foi a afronta ser tão grave que desencadeou a onda de protestos que se viu), associando o que não é associável (a França já condenou as palavras do cardeal Bertone) ou trasladando o peso do pecado, carregado desde Eva pelas mulheres, para as crianças (o bispo de Tenerife terá declarado que hay menores que desean el abuso e si te descuidas te provocan em 2007, mas as suas palavras vieram agora novamente à baila). Como escreveu Fernanda Câncio, anything goes.

9.4.10

Sugestões para o fim de semana:

Vá ao Porto festejar com a Casa da Música, que está a comemorar os seus 5 anos de vida.



Ou então vá num instantinho a Berlim assistir a esta Paixão. Watch trailer.

30.3.10

Paixão

Oportunidade para ir à Gulbenkian, hoje ou amanhã, e assistir à Paixão Segundo São Mateus, de Bach. A bilheteira online diz-nos que este evento se encontra esgotado, mas nunca se sabe.

Alegoria da Salvação, posterior a 1543, de Wolf Huber
(Kunsthistorisches Museum, Viena)


29.3.10

The horror! The horror!*

Não vem agora ao caso o como e o porquê, o facto é que me vi na contingência de furar a greve a que me tinha proposto e ontem à tarde fui assistir à récita de "Níobe, Rainha de Tebas" com o meu amigo Miguel.

Como prevíamos, ao intervalo saímos, fomos lanchar Sachertorte no Kaffeehaus e não pusemos mais os pés no TNSC. É que aquilo não é mau; aquilo consegue ser para lá de deprimente. Aquilo não tem ponta por onde se lhe pegue. Talvez se contassem umas oitenta pessoas na sala, várias por convite, outras com bilhete de última hora, que assim como assim é muito mais barato e, para quem quiser, dá para arriscar. Os camarotes estavam às moscas e umas três ou quatro frisas estavam semi-ocupadas. Também lá vi uns dez alemães, não sei se convidados de Dammann ou meros turistas que já que estavam em Lisboa compraram o bilhete. Não cheguei a perguntar-lhes.

Vamos então ao que interessa:

O preâmbulo "Hybris" dura uma meia hora e parece interminável. Foi encomendado a uma senhora romena de origem alemã que parece que já recebeu vários prémios. A versão cénica conta com seis cantores solistas em palco e um coro reduzido no fosso sem orquestra. O coro fazia barulhos com as mãos e com os pés e de vez em quando também com a boca. Acredito que todos tenham feito um excelente trabalho, eu é que não nasci para ouvir aquela guincharia.

Finalmente aquilo acabou e entrou a orquestra. Começa a abertura barroca e o espectador descansa um bocado a cabeça, mas por pouco tempo. Nem a música é extraordinária, nem a orquestra a toca admiravelmente. Os cenários são miseráveis: uma sala do palácio real pintada de cinzento-escuro, as arestas dos vãos dos janelões com um ar muito escalavrado, assim como mais umas falhas na tinta aqui e acolá. Mas tudo isso não teria grande importância. O pior é que a obra nos pareceu muito fraca, para sermos simpáticos com Agostino Steffani. Estava lá tão bem enterrada e esquecida numa biblioteca qualquer, ninguém dava pela sua falta, e apareceram umas almas iluminadas a acharem que era o máximo apresentá-la ao povo outra vez. Do ponto de vista dramático não tem interesse nenhum, não se passa nada (talvez mais tarde, quando os filhos de Níobe morrerem e ela se transformar em rocha, mas isso já não vimos), e a encenação também não ajuda. Um ou outro momento musical até parecia ser relativamente bonito, sem mais, mas era preciso abstrairmo-nos dos cantores e imaginarmos outras vozes lá por trás.

A rainha é interpretada por uma fraquinha Alexandra Coku, que já tem feito outras coisas por cá.
O rei é um sopranista polaco, Jacek Laszczkowski, dono de uma voz desagradável, fraca, que só ganha alguma força nas notas mais agudas, acabando estas por parecer deslocadas. Dos restantes cantores não me apetece falar.
Enfim, não havia meio de chegar o intervalo, pelo que estávamos já a ponderar a hipótese de sair a qualquer instante.


*O título foi descaradamente roubado a um amigo. Espero que ele não leve a mal.

27.3.10

Níobe, Rainha de Tebas, Chorando a Morte dos Filhos

Esta pintura de 1591, de Abraham Bloemaert, encontra-se num museu em Copenhaga e mostra-nos Níobe chorando a morte dos filhos. O Ípsilon publicou um artigo para quem quiser saber mais sobre a ópera que está em cena no Teatro de São Carlos.

Ankeruhr

Mais logo os relógios serão adiantados sessenta minutos, roubando uma hora à nossa noite. Felizmente amanhã é Domingo, porque à uma já serão duas e às duas já serão três e às duas por três já é de manhã.

Em Viena, ao meio-dia, doze figuras da História da cidade desfilam neste relógio e, de hora a hora, cada uma dá lugar à seguinte, sendo Marco Aurélio o primeiro da fila, à uma hora, e Joseph Haydn o último, às doze. Fico curioso por saber como será feita a passagem do testemunho esta noite, quando às 00h00 os Austríacos mudarem a hora e Haydn tiver de dar uma corridinha para que o imperador romano entre sem atrasos.

Ankeruhr - Viena

Não vá Haydn pensar que estamos zangados, ou pior, que queremos livrar-nos dele, ouçamo-lo aqui pelas mãos de Rostropovich, que hoje faria anos.

26.3.10

"Niobe, Regina di Tebe"


Não necessitando de penitência nesta Quaresma e mantendo-me fiel ao espírito grevista, não vou poder reportar sobre a ópera "Niobe, Regina di Tebe", que ontem estreou no Teatro de São Carlos. O Crítico já criticou e, segundo ele, estariam umas duzentas e cinquenta pessoas na sala. Para a terceira récita,  no próximo Domingo, ainda segundo Henrique Silveira, esperam-se umas sessenta. Uma versão cénica encomendada pelo TNSC e pelo Festival de Schwetzingen deveria atrair mais público, não? Talvez casa cheia.
A estreia da produção teve lugar no Teatro Rococó de Schwetzingen em 2008.

25.3.10

Aguardando

Gabriela Canavilhas foi entrevistada por João Almeida e falou, durante mais de uma hora e meia, de questões ligadas aos museus, às igrejas, às orquestras regionais, à cinemateca, à edição musical, às bibliotecas, à tauromaquia, ao teatro, etc. Ouça aqui a entrevista na íntegra.
A partir do minuto :54 ficamos a saber que as negociações entre a Opart e Christoph Dammann estão a decorrer "no sentido de se rescindir o contrato por mútuo acordo". O caso estará arrumado, "se tudo correr bem, durante o mês de Abril". A Ministra da Cultura, que não gosta de perder tempo e é muito rápida, já tem um substituto para o cargo. Aguardamos o feliz desfecho do caso Dammann para que todos possamos sorrir com a ministra.