3.2.09

Nas Asas da Canção

Mendelssohn nasceu há duzentos anos.

Victoria de los Ángeles: Auf Flügeln des Gesanges

(c1wang)
Auf Flügeln des Gesanges

Auf Flügeln des Gesanges,
Herzliebchen, trag ich dich fort,
Fort nach den Fluren des Ganges,
Dort weiß ich den schönsten Ort.

Dort liegt ein rotblühender Garten
Im stillen Mondenschein;
Die Lotosblumen erwarten
Ihr trautes Schwesterlein.

Die Veilchen kichern und kosen,
Und schaun nach den Sternen empor;
Heimlich erzählen die Rosen
Sich duftende Märchen ins Ohr.

Es hüpfen herbei und lauschen
Die frommen, klugen Gazelln;
Und in der Ferne rauschen
Des heiligen Stromes Welln.

Dort wollen wir niedersinken
Unter dem Palmenbaum,
Und Liebe und Ruhe trinken,
Und träumen seligen Traum.

Heinrich Heine


On Wings of Song

On wings of song,
My love, I'll carry you away
To the fields of the Ganges,
Where I know the most beautiful place.

There lies a red-flowering garden,
In the serene moonlight,
The lotus-flowers await
Their beloved sister.

The violets giggle and cherish,
And look up at the stars,
The roses tell each other secretly
Their fragrant fairy-tales.

The gentle, bright gazelles
Pass and listen;
And in the distance murmur
The waves of the holy stream.

There we will lay down,
Under the palm-tree,
And drink of love and peacefulness
And dream our blessed dream.

(Trad: Marty Lucas)


Adenda: Aqui podemos ouvir excertos (tracklist) do novo disco da bela Anne-Sophie Mutter dedicado ao compositor. Estão lá o concerto para violino, com a orquestra do Gewandhaus de Leipzig e Kurt Masur, e música de câmara - com Lynn Harrell e André Previn -. Ide a video para um pedacinho do concerto.

1.2.09

"Pollione", de Bellini


Saí da Gulbenkian com a sensação de ter ouvido pouco Bellini. O mesmo Lawrence Foster que tão bem captou o espírito straussiano de "Elektra" deu-nos uma leitura certinha, mas fria, de "Norma".

Do lado dos cantores, concordo que a entrada de Silvana Dussmann foi desastrosa. A coloratura em Ah! Bello a me ritorna saiu tão descontrolada que me encolhi na cadeira, assustado, e temi pelo resto da prestação da senhora. No entanto, o canto de Botha foi tão belo que talvez a tenha ajudado a desemperrar para o II acto e ela aí melhorou, vocal e dramaticamente, apesar de não ter deslumbrado quem é apaixonado pela Norma de Callas ou de Caballé. Mas isso é todo um outro universo.

Johan Botha, que eu tinha por cantor pouco interessante, foi um magnífico Pollione e a sua voz encheu o Grande Auditório sem pedir licença. Foi ele quem proporcionou mais prazer aos nossos ouvidos, nomeadamente no dueto com a Adalgisa de Heidi Brunner.

29.1.09

Quatro canções de Shakespeare


"As Aventuras de Robin Hood" salvaram-lhe a vida, dizia o próprio Korngold. Em 1938 foi convidado a compor a música do filme com Errol Flynn e Olivia de Havilland e deixou a Áustria a caminho de Hollywood. Pouco depois, a Áustria foi anexada pela Alemanha, os bens de Korngold foram confiscados e algumas das suas partituras foram destruídas. Foi o que sucedeu às "Vier Shakespeare-Lieder" op. 31, de 1937. Em 1941 Korngold reconstituiu-as de memória, em Los Angeles, e Anne Sofie von Otter gravou-as em 1998, com Bengt Forsberg, com quem também as interpretou em Lisboa.

Under the Greenwood Tree

Under the greenwood tree,
Who loves to lie with me,
And turn his merry note
Unto the sweet bird's throat,
Come hither, come hither;
Here shall he see
No enemy
But winter and rough weather.
(...)

William Shakespeare

(franz39)

27.1.09

Monte Palace

Tal como a Quinta dos Loridos, o Jardim Monte Palace, no Funchal, atesta o gosto do Comendador Berardo por coisas do Oriente. As fotografias foram enviadas pelo meu colega e amigo Jorge Falcato. Obrigado, Jorge.





Entretanto, no Museu Colecção Berardo, pode visitar a exposição "A Intuição e a Estrutura - De Torres-Garcia a Vieira da Silva". Mas só até ao próximo dia 15 de Fevereiro.

25.1.09

Baden Verboten

Graças a este post do jugular descobri o Europa Film Treasures e já me perdi por lá na descoberta de verdadeiras pérolas do cinema europeu, como esta.

24.1.09

Hélène Grimaud - Concerto em sol de Ravel


Samedi 24 janvier, connectez-vous sur www.medici.tv à 20h00 [19h00] pour suivre la pianiste Hélène Grimaud en direct, gratuitement, de la Cité de la musique. En association avec France 3 et France 2, le concert sera aussi diffusé sur www.citedelamusique.fr.

Hélène Grimaud interprétera le Concerto en sol de Ravel avec le Chamber Orchestra of Europe dirigé par le jeune chef russe Vladimir Jurowski. Egalement au programme, Métamorphoses et la Suite Le Bourgeois Gentilhomme de Richard Strauss.

Pour ceux qui ne pourront pas suivre le concert en direct, celui-ci sera disponible en VoD pendant 60 jours.

23.1.09

Google Earth

Os detalhes do jardim são tão deliciosos que também não resisti (há mais aqui).


E o auto-retrato de Dürer?




Está tudo no Prado e no Google Earth, à nossa disposição.

21.1.09

Elektra - Gulbenkian - III

Diz o Crítico, e eu, que não sou crítico e não percebo nada de música, concordo e subscrevo, que a "Elektra" da Gulbenkian foi extraordinária. Muitas pessoas que lá estiveram no dia 15 pensam o mesmo. Daí eu também não entender a crítica de Pedro Boléo a esse concerto (Público, 19 de Janeiro):

"Deborah Polaski foi um exemplo vivo desta contradição. A soprano americana não encontrou saídas para a claustrofobia de Electra, que muito grita e pouco consegue agir. Fraquejou sucessivamente nos agudos, deu notas ao lado, e sobretudo falhou expressivamente, não marcando a diferença em dois momentos fundamentais da ópera, o que não é compreensível para quem cantou Elektra muitas vezes e conhece tão bem a obra: o primeiro, quando sabe finalmente que Orestes está vivo ("Deixa que os teus olhos me vejam"), e depois no belo monólogo perto do final ("Se não ouço? Se não ouço a música? Mas ela vem de dentro de mim!"). Seria perdoada se tivesse agarrado estes dois momentos, mas não o fez."


Estranha ainda o Crítico, e eu também, que Pedro Boléo louve "cantores abomináveis que têm passado no S. Carlos [...] e massacre uma grande senhora como Polaski".

Já as ironias tecidas por Henrique Silveira sobre o casamento civil homossexual parecem-me tão descabidas como as críticas de Boléo.

20.1.09

Elektra - Gulbenkian - II

Ter a oportunidade de ouvir uma das melhores intérpretes (no activo) de Elektra, em Lisboa, foi um privilégio. Houve cantoras como Birgit Nilsson e Gwyneth Jones que cantaram o papel até bastante tarde nas suas carreiras e Deborah Polaski parece ir por esse caminho, embora não seja o milagre vocal que as outras foram. No momento em que Elektra entra no palco vemos uma mulher alta, de porte magnífico, que domina a personagem de trás para a frente. O seu grito "Orest", no momento em que reconhece o irmão, não lancinou; por vezes até podíamos querer sentir mais vigor, mais fogo, mais electricidade; e, no final, a voz começou a ressentir-se do esforço. No entanto, ela deu-nos uma interpretação grandiosa. Já muitos cantores antes dela deslumbraram mais pelo poder interpretativo que pelo portento e pela pujança vocal. Para Deborah Polaski, uma garrafa de água é um objecto de cena que ela usa sem pejo, bebendo ou parando ao som da música.

Deborah Polaski como Elektra (Paris)
foto de Anton Cupak

Polaski já anda a cantar pelos palcos do Mundo há uma boa série de anos. Já foi muitas vezes Isolde, Brünnhilde e Elektra. Recentemente cantou estes papéis em Berlim, Hamburgo e Nova Iorque. Já em Fevereiro será novamente Elektra em Munique e, em Maio, em Berlim (veja-se a agenda da cantora). E na próxima época estará em Madrid, segundo palavras da própria, numa produção de "Jenufa" de Janáček. Isto para dizer que ouvimos uma Senhora Cantora, que se aguenta por mais de uma hora e meia no palco sem dar parte de fraca, que sabe quais já são os seus limites vocais e, por essa razão, não os ultrapassa.

Mas a "Elektra" vive também de Klytämnestra, de Orest e de Chrysotemis. Se os papéis dos irmãos de Elektra estiveram bem entregues, foi a Klytämnestra de Rosalind Plowright quem mais surpreendeu. Noutros tempos ela foi uma grande soprano verdiana, agora aparece-nos em registo de mezzo-soprano e "sem medo do teatro que a personagem exige", como escreveu Pedro Boléo no Público de 19 de Janeiro.

A orquestra, dirigida por Lawrence Foster, brilhou numa partitura dificílima, como infelizmente não é hábito ouvir para os lados do Chiado.