1.10.07

Music For a While - No Dia Mundial da Música


If music be the food of love, play on;
Give me excess of it, that, surfeiting,
The appetite may sicken, and so die.
William Shakespeare (daqui)



O contratenor inglês Alfred Deller (1912-1979), especialista e divulgador da música renascentista e barroca, canta Music for a while:


Music for a while
Shall all your cares beguile:
Wond'ring how your pains were eas'd
And disdaining to be pleas'd
Till Alecto free the dead
From their eternal bands,
Till the snakes drop from her head,
And the whip from out her hands.

Texto de John Dryden (1631-1700) e Nathaniel Lee (1653?-1692)
Música de Henry Purcell (1658?-1695)

29.9.07

Kasarova - A Crítica

Respondendo a vários pedidos, aqui deixo as minhas impressões sobre o concerto de ontem à noite, no Teatro Nacional de São Carlos. O programa está aqui e foi com ele que se inaugurou a nova temporada. Como a estrela era Vesselina Kasarova, foi ela quem salvou a noite, quase impondo ritmo e energia a uma orquestra amorfa, dirigida por um maestro jovem e com pouca experiência. Com Kasarova no palco, a orquestra seguia-a e parecia ganhar algum brilho.

Momentos altos foram as duas árias de Handel e Mozart que cantou na primeira parte: Scherza infida, de "Ariodante" e Parto, ma tu ben mio, de "La clemenza di Tito" (esta já prometia, a fazer fé no vídeo mais abaixo). Na segunda parte, Kasarova cantou outra ária de Handel, Sta nell'Ircana pietrosa tana, de "Alcina", e uma de Rossini, Pensa alla patria, de "L'italiana in Algeri" (uma ária demonstrativa característica do compositor, que permitiu à cantora exibir, com muito bom gosto, as suas qualidades técnicas e interpretativas. Brava!)

Mas quem é que se lembra de pôr Sara Braga Simões a cantar uma ária desinteressante e longa de Sousa Carvalho, a parecer interminável, logo a seguir ao Ariodante de Kasarova, que já se previa ser um dos grandes momentos da noite? Há aqui erros de programação gravíssimos. As duas cantoras portuguesas que integraram este elenco esforçaram-se imenso e podem ser razoáveis a nível interno, mas ficaram sempre a perder por não estarem ao nível da cantora búlgara. Parecia até uma maldade sádica de quem fez o alinhamento do concerto. Mesmo José Fardilha, que é um cantor experiente e tem carreira internacional, teve dificuldades em acompanhar Kasarova num dueto extra-programa de "O Barbeiro de Sevilha". É muito bonito querer dar oportunidades aos cantores portugueses de cantarem com os convidados de honra, mas não se pode expô-los com as suas fraquezas quando a comparação com o excelente lhes será implacável.

26.9.07

Ritornello - Petição - Notícias

As petições poderão não levar a nenhum lado, mas servem para fazermos ouvir a nossa voz. A petição "Ritornello" foi formalmente entregue na Antena2.

"Depois de uma série de tentativas consegui, com mais três subscriptores, ser recebido na Antena2 a semana passada. Entregámos formalmente a petição, e conversámos sobre o assunto Ritornello.
Da parte da Antena2 há neste momento uma atitude reservada, uma vez que se encontra a decorrer um processo judicial, mas entendemos que será muito difícil que a actual equipa de gestão volte a aceitar a colaboração do Jorge Rodrigues...
No entanto sentimos que foi útil este encontro, porque nos deu oportunidade de apresentarmos os nossos pontos de vista sobre o que nos parece ser uma certa degradação da programação da Antena2, para o que, naturalmente, o fim do Ritornello também veio contribuir.
Cumprimentos
Sousa Mendes"

Teatro de São Carlos - Vesselina Kasarova




















Do Barroco ao Bel Canto


28 de Setembro de 2007, às 21:00h

Wolfgang Amadeus Mozart
Le nozze di Figaro (Abertura)

George Frideric Handel
Ariodante, HWV 33 (1735)
Recitativo e Ária «E vivo ancora?... Scherza infida in grembo al drudo» (Ariodante)

João de Sousa Carvalho
Testoride Argonauta
Recitativo e Ária «Ah ingrato taci. Nasconderó nel seno» (Nicea)

Wolfgang Amadeus Mozart
Le nozze di Figaro
Recitativo e Ária «Tutto è disposto... Aprite un po quegl'occhi » (Figaro)

Marcos Portugal
Zaira
Recitativo e Ária «Oh ciel! Che dissi mai?... Frenar vorrei le lacrime» (Zaira)

Wolfgang Amadeus Mozart
La clemenza di Tito, KV 621 (1791)
Ária «Parto, ma tu ben mio» (Sesto)

Giuseppe Verdi
La forza del destino (Abertura)

Vincenzo Bellini
I Capuleti e i Montecchi
Recitativo e Ária «Eccomi in lieta vesta... Oh! Quante volte» (Giulietta)

George Frideric Handel
Alcina, HWV 34 (1735)
Ária «Sta nell'Ircana pietrosa tana» (Ruggiero)

Rinaldo
Ária «Sibillar gli angui d'Aletto» (Argante)

Gaetano Donizetti
Don Pasquale
Ária «Quel guardo il cavaliere» (Norina)

Gioachino Rossini
L'italiana in Algeri (1813)
Recitativo e Rondò «Amici, in ogni evento m'affido a voi... Pensa alla patria» (Isabella)


sopranos

Sara Braga Simões
Carla Caramujo

meio-soprano
Vesselina Kasarova

barítono
José Fardilha

direcção musical
Cornelius Meister

Orquestra Sinfónica Portuguesa

Parto, ma tu ben mio, de "La clemenza di Tito", de Mozart, que Kasarova cantará no Teatro de São Carlos. Aqui, no Festival de Salzburgo, o maestro é Harnoncourt.


D'amour l'ardente flamme, de "La Damnation de Faust", de Berlioz. Também em Salzburgo, Cambreling dirige a Staatskapelle Berlin.

(philopera)

Petição - Conservatório

O Guilhermina Suggia divulgou a petição "Alguém acuda ao Salão Nobre do Conservatório", dirigida ao Sr. Presidente da República, Sr. Presidente da Assembleia da República, Sr. Primeiro-Ministro, Sra. Ministra da Educação, Sra. Ministra da Cultura e Sr. Presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

Sabemos a o que levam as petições, mas também conhecemos o estado de (des)conservação do Conservatório. Por isso, assinei.

24.9.07

O Adeus de Wotan - Bryn Terfel

Há quem não aprecie Bryn Terfel, mas também há quem o considere o maior baixo-barítono dos nossos dias, herdeiro de Hans Hotter e Dietrich Fischer-Dieskau. Quando se trata do Deus dos Deuses, o Wotan de "O Anel do Nibelungo", é difícil encontrar um outro cantor que esteja ao seu nível. Aqui, ele canta a sua despedida a Brünnhilde, no final de "A Valquíria". O maestro é Claudio Abbado, dirigindo a Orquestra do Festival de Lucerna.

Brünnhilde desobedeceu a seu pai, Wotan, ao tentar dar a vitória a Siegmund na batalha contra Hunding, o marido de Sieglinde, embora essa fosse a vontade original do deus. Wotan castiga Brünnhilde severamente. Com um beijo, retira-lhe a divindade. A valquíria ficará adormecida no seu rochedo, envolta nas chamas do fogo mágico de Loge, até que o maior de todos os heróis a venha acordar.

(P.S. A música é sublime e sublimemente interpretada. Brünnhilde acorda aqui e aqui.)

WOTAN (Wotans Abschied)
Leb' wohl, du kühnes, herrliches Kind!
Du meines Herzens heiligster Stolz!
Leb' wohl! Leb' wohl! Leb' wohl!
Muss ich dich meiden,
und darf nicht minnig
mein Gruss dich mehr grüssen;
sollst du nun nicht mehr neben mir reiten,
noch Met beim Mahl mir reichen;
muss ich verlieren dich, die ich liebe,
du lachende Lust meines Auges:
ein bräutliches Feuer soll dir nun brennen,
wie nie einer Braut es gebrannt!
Flammende Glut umglühe den Fels;
mit zehrenden Schrecken
scheuch' es den Zagen;
der Feige fliehe Brünnhildes Fels!
Denn einer nur freie die Braut,
der freier als ich, der Gott!

Der Augen leuchtendes Paar,
das oft ich lächelnd gekost,
wenn Kampfeslust ein Kuss dir lohnte,
wenn kindisch lallend der Helden Lob
von holden Lippen dir floss:
dieser Augen strahlendes Paar,
das oft im Sturm mir geglänzt,
wenn Hoffnungssehnen das Herz mir sengte,
nach Weltenwonne mein Wunsch verlangte
aus wild webendem Bangen:
zum letztenmal
letz' es mich heut'
mit des Lebewohles letztem Kuss!
Dem glücklichen Manne
glänze sein Stern:
dem unseligen Ew'gen
muss es scheidend sich schliessen.
Denn so kehrt der Gott sich dir ab,
so küsst er die Gottheit von dir!

Loge, hör'! Lausche hieher!
Wie zuerst ich dich fand, als feurige Glut,
wie dann einst du mir schwandest,
als schweifende Lohe;
wie ich dich band, bann ich dich heut'!
Herauf, wabernde Lohe,
umlodre mir feurig den Fels!
Loge! Loge! Hieher!
Wer meines Speeres Spitze fürchtet,
durchschreite das Feuer nie!


Wotan
Adeus, minha criança temerária e magnífica!
Tu, o orgulho sagrado do meu coração!
Adeus! Adeus! Adeus!
Tenho de te abandonar
e não voltarei a dar-te, com amor, a saudação.
Não tornarás a cavalgar a meu lado,
nem me trarás mais o hidromel.
Tenho de te perder, a ti, que eu amo,
tu, a alegria dos meus olhos.
Que arda aqui um fogo nupcial,
como nunca ardeu antes!
Que as chamas incandescentes incendeiem o rochedo
e com o seu terror afastem os medrosos.
Que os cobardes fujam do rochedo de Brünnhilde!
Só um libertará a noiva,
o que for mais livre que eu, o Deus!

Este par de olhos brilhantes,
que tantas vezes acariciei,
quando a tua valentia merecia um beijo,
quando um louvor aos heróis
fluía dos teus lábios de criança;
Este par de olhos luminosos,
que nas tempestades me sorria,
quando o desespero me consomia o coração,
quando o meu desejo procurava os prazeres do mundo
por caminhos tortuosos;
Que uma última vez eu os possa beijar,
com o último beijo do adeus!
Que ao homem feliz brilhe a sua estrela,
para o infeliz imortal ela apaga-se.
Assim se afasta o Deus de ti,
roubando-te a divindade com este beijo!

Loge, ouve! Aparece!
Como te vi pela primeira vez, como labareda,
como uma vez me desapareceste,
chama ardente.
Porque te submeti, agora te invoco!
Sobe, chama mágica,
Envolve o rochedo de fogo!
Loge! Loge! Aqui!
Aquele que temer a ponta da minha lança
jamais atravessará este fogo!

(Ver o "Adeus de Wotan" em Bayreuth, com Donald McIntyre e Gwyneth Jones)

(Wotan no valkirio)

23.9.07

Casa em Sintra - Poveri Fiori

No centro de Sintra, nas escadinhas que descem do antigo hospital da Misericórdia, está uma casa abandonada há MUITOS anos. Quando por lá passo, paro para cheirar as rosas-de-santa-teresinha do pequeno jardim e quase sempre acabo por colher uma. Não lhes resisto. Agora, os andaimes indicam que a casa vai ser finalmente recuperada. Veremos o que acontece à casa e às rosas.




































Poderá não vir muito a propósito, mas lembrei-me de Adriana Lecouvreur, de Cilea. Adriana (Montserrat Caballé), actriz da Comédie Française, descobre durante uma festa no palácio da princesa de Bouillon (Fiorenza Cossotto) que esta está apaixonada por Maurizio. Vencida pelo ciúme, quando a convidam a declamar, escolhe Fedra, de Racine, e aponta a princesa como mulher adúltera.

Giusto cielo! che feci in tal giorno? (Monólogo de Adriana)

(Oneguin65)

ADRIANA
E "Fedra" sia!

TUTTI
Udiamo ...

ADRIANA
... Giusto Cielo! che feci in tal giorno?
Già s'accinge il mio sposo col figlio al ritorno:
testimon d'un'adultera fiamma, ei vedrà
in cospetto del padre tremar mia viltà,
e gonfiarsi il mio petto de' vani sospir,
e tra lacrime irrise il mio ciglio languir!

Credi tu che, curante di Tèseo la fama,
disvelargli non osi l'orrendo mio drama?
Che mentire ei mi lasci al parente ed al re?
E raffreni l'immenso ribrezzo per me?

Egli invan tacerebbe! So il turpe mio inganno,
o Enon, né compormi potrei, come fanno ...
le audacissime impure, cui gioia è tradir,
una fronte di gel, che mai debba arrossir!

LA PRINCIPESSA
Brava! ...

TUTTI
Brava! Sublime!

MICHONNET
O sconsigliata, che mai facesti?

ADRIANA
(Son vendicata!)

LA PRINCIPESSA
(Un tale insulto! Lo sconterà! ...)
Restate!!! ...

ADRIANA
Chiedo in bontà di ritirarmi ...

A princesa vinga-se, enviando flores envenenadas a Adriana, que as cheira e morre. Mas não sem antes cantar uma lindíssima ária, em que fala das pobres flores, ontem nascidas e hoje já mortas, quais juras de um coração infiel.

Poveri fiori

(Oneguin65)

Poveri fiori

ADRIANA
Poveri fiori, gemme de'prati,
pur ieri nati, oggi morenti,
quai giuramenti d'infido cor!
L'ultimo bacio, o il bacio primo,
ecco v'imprimo,
soave e forte bacio di morte,
bacio d'amor.
Tutto è finito!
Col vostro olezzo muoia il disprezzo,
con voi d'un giorno senza ritorno cessi l'error!
Tutto è finito!

21.9.07

Notícias

Já há notícias da sementeira de plumérias do Miguel.

Ponta da Piedade

1 - Foeniculum vulgare - Funcho, também conhecido por erva-doce, anis-doce, maratro ou finóquio, ou fiuncho...
6 - As asas da libelinha, predador muito útil no controlo das populações de mosquitos e outros insectos.






18.9.07

Flores de Fim de Verão no Cabo da Roca

As flores silvestres começam a escassear, anunciando o Outono. Mas o Verão até nem foi demasiado seco e, olhando com atenção, encontramos algumas espécies que nos alegram as vistas. No Cabo da Roca, vi um cravo escondido entre os chorões, alguns exemplares de trovisco e, em quantidade bastante satisfatória, as cebolas-do-mar.

1 e 2 - Trovisco (Daphne gnidium)
3 - Cebola-albarrã ou cebola-do-mar (Ornithogalum maritimum = Urginea maritima)
4 - Cravo-de-Sintra(?) (Dianthus cintranus?)