11.11.08

São Martinho e o Mendigo



França, 1531, calcário
Museu Calouste Gulbenkian




El Greco, 1597/1599, óleo sobre tela
National Gallery of Art, Washington
(mais detalhes)


Il était une fois à la cour d'Eisenach
(excerto de "Les Contes d'Hoffmann", de Offenbach)
Plácido Domingo, Covent Garden, 1981

(LaViolettaValery)

9.11.08

Viver no Inferno

"Inferno", Anónimo do séc. XVI, Museu Nacional de Arte Antiga

São duas da manhã e os bares estão a fechar. Ainda conseguimos comprar uma bebida e vamos para a rua, caminhando devagar em direcção às senhoras dos rissóis. Mais o apetite que a fome empurra-nos para aquela porta onde as três senhoras montam guarda nocturna: uma mostra os rissóis e os croquetes às escondidas, a outra faz o troco e a terceira perscruta a rua com o olhar conhecedor, não vá o diabo estar escondido atrás da esquina. Os rissóis estão ainda mornos, deliciosos. Passa um potencial comprador mas o sinal já foi dado, eles andam por perto e o produto está escondido atrás da porta: "Volte mais tarde". Uns minutos mais tarde parece que eles já se foram e o negócio escuro reabre, às escuras, e se pedirmos um croquete a senhora volta a abrir o embrulho e a mostrar o produto, como se fosse pó branco ou um fio de ouro roubado. Ela sabe que os seus fritos são frutos proibidos. Mas eis que o diabo agora aparece, com o rabo bem escondido, nem uma pontinha de fora, e a sentinela não chega a tempo de dar o alarme. A mercadoria é apreendida, há quem se insurja, toca tudo a identificar-se, eles também antes queriam estar a beber um copo que ter de trabalhar de madrugada, já estão ao serviço há dezasseis horas, a apreender rosas, geleiras, haxixe falsificado, têm um arsenal de material confiscado na viatura e só estão a cumprir ordens. Ficamos esclarecidos, continuando a ignorar, porém, que mal fizeram os saborosos e nutritivos rissóis.

8.11.08

Parque de Gülhane




Um dos parques mais antigos de Istambul era, na sua origem, parte integrante dos jardins de Topkapi. O seu nome, Gülhane, diz-nos que em tempos existiu lá um roseiral que perfumava os ares do palácio e do harém. Passeando pelo parque, encontramos plátanos, cedros e castanheiros-da-Índia e espantamo-nos com um roseiral fora do comum. Primeiro pensamos tratar-se de um cemitério, depois percebemos que é um extenso canteiro de mármore, de cujas aberturas despontam roseiras.

7.11.08

Evgeny Kissin - I


É amanhã, na Gulbenkian, e o programa é este:
Sergei Prokofiev
Suite de Romeu e Julieta, op.75 (3 andamentos)
- Julieta
- Mercutio
- Montéquios e Capuletos


Sonata Nº 8, em Si bemol Maior, op.84

Fryderyk Chopin
Polaca-Fantasia em Lá bemol Maior, op.61

Mazurca em Dó sustenido menor, op.30 nº 4
Mazurca em Lá bemol Maior, op.41 nº 4
Mazurca em Lá menor, op.59

Estudo em Dó Maior, op.10 nº 1
Estudo em Lá menor, op.10 nº 2
Estudo em Mi Maior, op.10 nº 3
Estudo em Dó sustenido menor, op.10 nº 4
Estudo em Dó menor, op.10 nº 12

Estudo em Mi menor, op.25 nº 5
Estudo em Sol sustenido menor, op.25 nº 6
Estudo em Lá menor, op.25 nº 11

Sonata Nº 6 de Prokofiev, IV - Vivace

(cygnusdei)

25.10.08

Artur Pizarro - Ravel, volume II


Mais um disco de piano para ter em casa e para oferecer aos amigos. É o segundo volume das obras completas para piano de Maurice Ravel, tocadas por Artur Pizarro e gravadas em Bristol, no Reino Unido (o primeiro volume foi gravado no Teatro de São Luís).

Eis um excerto da crítica de Charlotte Gardner no sítio da BBC:

"There is a popular children's tale about a necklace of raindrops that I think would have appealed to Maurice Ravel. When I imagine the composer, I picture the tiny Frenchman alone, immaculately suited, head full of his beloved fairytales, winding up his collection of mechanical toys. Whilst this is an undeniably whimsical thought, its inspiration comes from his music, the crystalline notes placed inside antique forms with a near-fanatical delicacy and precision, like a necklace of raindrops. Stravinsky once described Ravel as, ''the most perfect of Swiss clockmakers'' and, whilst we can debate the Russian's intended meaning until we’re blue in the face, I doubt he was referring to Ravel’s engineering father or his tenuous connections with the homeland of Toblerone. More likely is that he recognised a master musical technician who married form with beauty to often dazzling effect. Analogies over, the reason why I'm at pains to convey all these images is because they sum up for me how Ravel's music should sound – like magical musical filigree - and my delight at hearing Artur Pizarro achieve just such an effect."

Sonatine - Animé (excerto)


20.10.08

Maria João Pires - Chopin

O mais recente trabalho discográfico de Maria João Pires é um CD duplo (E-player), gravado já em 2008 e dedicado a obras compostas por Chopin nos últimos anos de vida.

Do álbum constam a sonata para piano nº 3 em si menor, op. 58, a sonata para violoncelo e piano em sol menor, op. 65, com Pavel Gomziakov, a Polonaise-Fantaisie em lá bemol maior, op. 61, e uma selecção de nocturnos, valsas e mazurkas.

A ouvir, pois claro: Sonata para violoncelo e piano em sol menor, op. 65 (1845-46) - 3º andamento - Largo



Maria João Pires e Pavel Gomziakov
"Maria João Pires: Nunca sei muito bem dizer o que me sensibiliza num músico, é imperceptível, trata-se de uma afinidade misteriosa que nasce espontaneamente. No caso de Pavel Gomziakov, é porque encontrei nele uma dignidade no estilo, uma certa austeridade no som que convêm perfeitamente a esta música e que me emocionaram de imediato."

(Excerto de uma conversa com Frédéric Sounac, transcrita no folheto que acompanha o CD)

Chopin morreu a 17 de Outubro de 1849 na Place Vendôme, com 39 anos de idade.

Chopin, ca. 1849
(daguerreótipo de L. A. Bisson)

17.10.08

Ayasofya








"(...) Se eu dissesse a um cristão ou a um muçulmano que no universo há mais de 400 mil milhões de galáxias e que cada uma delas contém mais de 400 mil milhões de estrelas, e que Deus, seja ele Alá ou o outro, não poderia ter feito isto, melhor ainda, não teria nenhum motivo para fazê-lo, responder-me-iam indignados que a Deus, seja ele Alá ou o outro, nada é impossível. Excepto, pelos vistos, diria eu, fazer a paz entre o Islão e o Cristianismo, e, de caminho, conciliar a mais desgraçada das espécies animais que se diz terem nascido da sua vontade (e à sua semelhança), a espécie humana, precisamente.
(...)
Já nada adianta dizer que matar em nome de Deus é fazer de Deus um assassino. Para os que matam em nome de Deus, Deus não é só o juiz que os absolverá, é o Pai poderoso que dentro das suas cabeças juntou antes a lenha para o auto-de-fé e agora prepara e ordena colocar a bomba. (...)"

(Excertos de "Deus como problema", em "O Caderno de Saramago")


Basílica de Santa Sofia, ou da "Santa Sabedoria", na Wikipedia.


15.10.08

As folhas mortas recolhem-se à pá

Yves Montand

Les Feuilles Mortes

Oh! je voudrais tant que tu te souviennes
Des jours heureux où nous étions amis.
En ce temps-là la vie était plus belle,
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle.
Tu vois, je n'ai pas oublié...
Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Et le vent du nord les emporte
Dans la nuit froide de l'oubli.
Tu vois, je n'ai pas oublié
La chanson que tu me chantais.

C'est une chanson qui nous ressemble.
Toi, tu m'aimais et je t'aimais
Et nous vivions tous deux ensemble,
Toi qui m'aimais, moi qui t'aimais.
Mais la vie sépare ceux qui s'aiment,
Tout doucement, sans faire de bruit
Et la mer efface sur le sable
Les pas des amants désunis.

Les feuilles mortes se ramassent à la pelle,
Les souvenirs et les regrets aussi
Mais mon amour silencieux et fidèle
Sourit toujours et remercie la vie.
Je t'aimais tant, tu étais si jolie.
Comment veux-tu que je t'oublie?
En ce temps-là, la vie était plus belle
Et le soleil plus brûlant qu'aujourd'hui.
Tu étais ma plus douce amie
Mais je n'ai que faire des regrets
Et la chanson que tu chantais,
Toujours, toujours je l'entendrai!

(Jacques Prévert, Joseph Cosma)


"Folhas Mortas" da Rosa


Yves Montand
(paccaggicco)

Juliette Gréco
(hapansen)