Digo: Esteva! Não se cultiva a esteva, é planta brava. Em latim, chama-se Cistuslaudaniferum. A flor é branca, amarela ao centro e vaporosa, corra ou não a brisa... As veredas estão cheias de esteva, quando pela estrada passo, de automóvel. Nos campos é vulgar, se abandonados. Tem um cheiro pungente, masculino, urgente, que lhe confere ardores afrodisíacos e nada há de mais fascinante do que um rol de esteva alentejana. De resto, há muita esteva, lá não faltam outras estevas menos agressivas, como a esteva de flor cor de púrpura, em tudo uma esteva feminina.
Digo: Esteva! Sob o sol ardente, pétalas de neve e uma abelha ao centro e folhas verde-escuro, túrgidas de láudano.
Se queres subir ao céu, põe o pé na esteva, a mão no sargaço: Ala que é palhaço!
Na área de paisagem protegida do Parque Natural de Sintra-Cascais, bem perto dos miosótis-da-praia, encontrámos também a cocleária-menor. Tal como eles, esta espécie desponta em solo arenoso. É um endemismo lusitano, classificado como vulnerável.
Foi perto do Convento de Santa Cruz dos Capuchos, na Serra de Sintra lavada de chuva e vento e já com os primeiros raios da bonança, que fomos encontrar estes miosótis. Também nós ficámos imóveis, com receio de os pisarmos.
Myosotis sylvatica
Mais perto do mar procurámos os miosótis-da-praia, que não são miosótis, mas sim "abanos". Com um nome científico tão bonito, a Omphalodes kuzinskyanae corre sérios riscos de desaparecer do mapa dos endemismos lusitanos, devido às construções que surgiram em determinadas zonas da nossa costa. Esta planta de pequeninas flores é endémica de rochedos e areias marítimas entre o Cabo da Roca e o Estoril.
Para os antigos gregos, Zéfiro era o vento do Oeste, que fecundava as éguas lusitanas e lhes tornava os potros velozes. Por estes dias, o vento parece vir de todos os lados e em nada se assemelha à brisa benfazeja, favorável, mensageira da Primavera. A flora, que Zéfiro deveria agora afagar, anda num rodopio pelos ares.
Mas, para os mesmos gregos, Zéfiro era ainda uma das partes de um triângulo amoroso. O belo e atlético Jacinto, por quem Zéfiro estava apaixonado, era amado também por Apolo, que descurava todas as suas outras actividades para estar junto dele. Um dia, Apolo lançou o disco o mais alto que pôde para impressionar Jacinto. Este correu para o apanhar, mas o ciumento Zéfiro desviou-o com um sopro e o disco atingiu o jovem mortalmente. Apolo, desolado, tentou reanimá-lo, mas já nada havia a fazer. Inconsolável, não o deixou partir, transformando-o numa flor.
Está bom de ver que esta história fornece temática mais que suficiente para interessar artistas de vários quadrantes, mas, por razões que me ultrapassam, as artes performativas andaram durante muito tempo presas a um conservadorismo que pintores e escultores enviaram para outras bandas. Quando Mozart compôs a ópera Apollo et Hyacinthus, aos onze anos de idade, o enredo foi "ligeiramente" alterado pelo libretista (o padre Rufinus Widl): Apolo e Zéfiro passaram a desejar Melia, irmã de Jacinto.
Para o bucólico Monteverdi, Zéfiro permanece uma brisa suave que acaricia os prados e as flores.
Zefiro torna
Zefiro torna, e di soavi accenti l’aer fa grato e’l pié discioglie a l’onde, e, mormorando tra le verdi fronde, fa danzar al bel suon su’l prato i fiori.
Inghirlandato il crin Fillide e Clori note temprando amor care e gioconde; e da monti e da valli ime e profonde raddoppian l’armonia gli antri canori.
Sorge più vaga in ciel l’aurora, e’l sole, sparge più luci d’or; più puro argento fregia di Teti il bel ceruleo manto.
Sol io, per selve abbandonate e sole, l’ardor di due begli occhi e’l mio tormento, come vuol mia ventura, hor piango, hor canto.
"E ela, que tinha trabalhado com tanto afinco, disse, bocejando: — Ah! ainda estou meia a dormir... peço desculpa. Venho toda despenteada... O principezinho não pôde nesse momento conter a sua admiração: — Como é bela! — Não é verdade? — respondeu a flor em voz baixa —. E nasci ao mesmo tempo que o sol..."
Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho (Editorial Aster, tradução de Alice Gomes)
Recriação poética de Frederico Lourenço Encenação Luis Miguel Cintra Cenário e figurinos Cristina Reis Desenho de luz Daniel Worm D’Assumpção
Distribuição
Duarte Guimarães, José Manuel Mendes, Luís Lucas, Luís Lima Barreto, Luis Miguel Cintra, Márcia Breia, Nuno Casanovas, Nuno Lopes, Rita Durão, Rita Loureiro, Sofia Marques e Vítor de Andrade.
(...) Frederico Lourenço volta a trabalhar para a Cornucópia com um projecto de sua própria iniciativa: a sua versão do Don Carlos, um dos grandes textos do Teatro Romântico Alemão, mais conhecido pela ópera de Verdi que o utilizou como libreto. É um drama histórico exemplar que recria o reinado de Filipe II de Espanha como sociedade despótica e repressora dos valores da liberdade política e individual. O rei casa com Isabel de Valois, amada do jovem príncipe Don Carlos, herdeiro do trono. O amor do príncipe com aquela que se tornou sua madrasta torna-se impossível. Don Carlos e o seu amigo Rodrigo, marquês de Posa, querem impedir a repressão violenta da revolta na Flandres. São perseguidos como rebeldes pela Inquisição, presente em cena na figura todo poderosa do Grande Inquisidor. Rodrigo sacrifica-se por Don Carlos. (...)
Da ópera "Don Carlos" já falei aqui. Deixo agora o dueto do Infante com o amigo Rodrigo, cantado por Roberto Alagna e Thomas Hampson quando o Théâtre du Châtelet mostrou a versão (quase) integral do original em francês (Paris, 1996).
Dieu, tu semas dans nos âmes
Un rayon des mêmes flammes,
Le même amour exalté,
L'amour de la liberté!
Dieu, qui de nos coeurs sincères
As fait les coeurs de deux frères,
Accepte notre serment.
Nous mourrons en nous aimant!
É a chupa-mel, língua-de-vaca, soagem ou soagem-viperina, como consta na Flora Digital de Portugal. Parecem línguas que saem da boca da víbora, ameaçando os que tentam aproximar-se dela; daí o nome comum Purple Viper's Bugloss, para os ingleses. Os franceses chamam vipérines às plantas do género Echium e, para os alemães, ele é oNatternkopf (cabeça de víbora).