6.3.12

Sonetto XXIV

O Rapto de Ganímedes, d'après Michelangelo, no Kunsthistorisches Museum de Viena
(O desenho original, oferecido por Michelangelo a Tommaso de’ Cavalieri, perdeu-se,
mas a Royal Collection mantém uma cópia)


Pintor, escultor, poeta, arquitecto, engenheiro, Michelangelo Buonarroti nasceu a 6 de Março de 1475. Toda a gente conhece o David e a Capela Sistina, no entanto os seus poemas são menos populares.
Benjamin Britten terminou a composição de Sete Sonetos de Michelangelo em 1940, para Peter Pears, quando ambos viviam em Nova Iorque. Jonas Kaufmann também já os cantou.
O Soneto XXIV (Spirto ben nato) é o último do ciclo e traduz muito bem a sensualidade e a intensidade emocional dos "poemas de amor" de Michelangelo, tal como um outro dedicado a Tommaso de’ Cavalieri que termina assim:
Se vint’ e pres’ i’ debb’esser beato,
Maraviglia non è se, nud’ e solo,
Resto prigion d’un Cavalier armato.
Se, derrotado e cativo, sou afortunado,
Não é estranho que, indefeso e só,
Fique refém de um Cavaleiro armado.



Spirto ben nato, in cui si specchia e vede
Nelle tue belle membra oneste e care
Quante natura e 'l ciel tra no' può fare,
Quand'a null'altra suo bell'opra cede;
Spirto leggiadro, in cui si spera e crede
Dentro, come di fuor nel viso appare,
Amor, pietà, mercè, cose sì rare,
Che ma’furn’in beltà con tanta fede;
L’amor mi prende e la beltà mi lega;
La pietà, la mercè con dolci sguardi
Ferma speranz’al cor par che ne doni.
Qual uso o qual governo al mondo niega,
Qual crudeltà per tempo, o qual più tardi,
C’a sì bel viso morte non perdoni?

Noble spirit, in whom is reflected,
And in whose beautiful limbs, honest and dear, one can see
All that nature and heaven can achieve within us,
Excelling any other work of beauty;
Graceful spirit, within whom one hopes and believes
Dwell - as they outwardly appear in your face -
Love, pity, mercy, things so rare
And never found in beauty so truly;
Love takes me captive, and beauty binds me;
Pity and mercy with sweet glances
Fill my heart with strong hope.
What law or power in the world,
What cruelty of this time or of a time to come,
Could keep Death from sparing such a lovely face?

(Tradução para Inglês encontrada no YouTube)

14 comentários:

  1. Neste blogue, é sempre a aprender!
    Sabia eu lá que esse rapaz também era poeta.
    Obrigada, Paulo.

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    1. Era um verdadeiro homem do Renascimento.

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  2. E olhando para essa foto do Kaufmann não posso deixar de pensar (com um sorriso que tu entendes) na espera que lhe fizemos no fim do concerto...

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    1. Fizemos-lhe uma espera? ;)

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  3. O poema é muito bonito, especialmente em italiano. Obrigada por o dares a conhecer. Já a música de Britten não me entusiasma. A voz de Kaufmann, .

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    1. (Não gostei de nenhuma das traduções que encontrei, quer no disco que tenho com a gravação de Peter Pears, quer na Internet. Esta foi a menos má. E nem me atrevi a traduzir Michelangelo para Português moderno. Quando muito, tentaria pôr o soneto em Português do século XVI.)

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    2. Hehehe se tentares, eu tento ler.

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    3. Alma miña gentil e bem nascida, em cuja se espelha e vê, etc. ;)

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  4. Britten tem dias. Destes Sete Poemas, por exemplo, gosto de dois ou três, especialmente deste Spirto ben nato. Os outros também não me entusiasmam.

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  5. Anónimo7.3.12

    Existem 2 versoes do desenho, nao e Paulo?

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    1. Pelo que consegui apurar no site da Royal Collection, os quatro desenhos que Michelangelo tinha oferecido a Cavalieri foram adquiridos, depois da morte deste, pelo Cardeal Alessandro Farnese. Na época tinham sido muito populares e existiam várias cópias em desenho e gravura. O Ganímedes da Royal Collection será uma dessas cópias. Quanto a outras versões, não sei.

      O quadro que está em Viena não tem data e é de autor desconhecido. É uma de várias pinturas feitas a partir do desenho de Michelangelo.

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  6. Também desconhecia que Miguel Ângelo tinha sido poeta...

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  7. Anónimo11.3.12

    Obrigado Paulo.
    Creio que existe uma outra versão do desenho acho que já a vi em reprodução mas já não sei onde. Vou investigar.

    J. Ildefonso.

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    1. Fico a aguardar, J. Ildefonso.

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