23.9.07

Casa em Sintra - Poveri Fiori

No centro de Sintra, nas escadinhas que descem do antigo hospital da Misericórdia, está uma casa abandonada há MUITOS anos. Quando por lá passo, paro para cheirar as rosas-de-santa-teresinha do pequeno jardim e quase sempre acabo por colher uma. Não lhes resisto. Agora, os andaimes indicam que a casa vai ser finalmente recuperada. Veremos o que acontece à casa e às rosas.




































Poderá não vir muito a propósito, mas lembrei-me de Adriana Lecouvreur, de Cilea. Adriana (Montserrat Caballé), actriz da Comédie Française, descobre durante uma festa no palácio da princesa de Bouillon (Fiorenza Cossotto) que esta está apaixonada por Maurizio. Vencida pelo ciúme, quando a convidam a declamar, escolhe Fedra, de Racine, e aponta a princesa como mulher adúltera.

Giusto cielo! che feci in tal giorno? (Monólogo de Adriana)

(Oneguin65)

ADRIANA
E "Fedra" sia!

TUTTI
Udiamo ...

ADRIANA
... Giusto Cielo! che feci in tal giorno?
Già s'accinge il mio sposo col figlio al ritorno:
testimon d'un'adultera fiamma, ei vedrà
in cospetto del padre tremar mia viltà,
e gonfiarsi il mio petto de' vani sospir,
e tra lacrime irrise il mio ciglio languir!

Credi tu che, curante di Tèseo la fama,
disvelargli non osi l'orrendo mio drama?
Che mentire ei mi lasci al parente ed al re?
E raffreni l'immenso ribrezzo per me?

Egli invan tacerebbe! So il turpe mio inganno,
o Enon, né compormi potrei, come fanno ...
le audacissime impure, cui gioia è tradir,
una fronte di gel, che mai debba arrossir!

LA PRINCIPESSA
Brava! ...

TUTTI
Brava! Sublime!

MICHONNET
O sconsigliata, che mai facesti?

ADRIANA
(Son vendicata!)

LA PRINCIPESSA
(Un tale insulto! Lo sconterà! ...)
Restate!!! ...

ADRIANA
Chiedo in bontà di ritirarmi ...

A princesa vinga-se, enviando flores envenenadas a Adriana, que as cheira e morre. Mas não sem antes cantar uma lindíssima ária, em que fala das pobres flores, ontem nascidas e hoje já mortas, quais juras de um coração infiel.

Poveri fiori

(Oneguin65)

Poveri fiori

ADRIANA
Poveri fiori, gemme de'prati,
pur ieri nati, oggi morenti,
quai giuramenti d'infido cor!
L'ultimo bacio, o il bacio primo,
ecco v'imprimo,
soave e forte bacio di morte,
bacio d'amor.
Tutto è finito!
Col vostro olezzo muoia il disprezzo,
con voi d'un giorno senza ritorno cessi l'error!
Tutto è finito!

7 comentários:

  1. :) São tão dramáticos os sentimentos numa ópera, não são?! A pobre Adriana foi envenenada por causa de um simples boato? E ainda por cima com flores! (Estou a brincar, não conheço a ópera!)

    Em relação às rosas de sta teresinha tenho algumas dúvidas que consigam sobreviver incólumes, pela minha experiência obras e jardins são coisas incompatíveis. Talvez fosse mais seguro tirar algumas estacas, embora ainda seja um pouco cedo.
    bjs

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  2. As histórias das óperas são (foram) apenas um pretexto para compor música maravilhosa e muitas vezes nem interessam muito. Há excepções, como Wagner ou Strauss (Salomé vem das mãos de Oscar Wilde e Elektra é um retrato psicológico que vem direitinho da cultura clássica). Wagner é mesmo um caso à parte. Fervoroso amante dos Gregos e da mitologia clássica, pegou nos mitos nórdicos e mostrou-nos a sua visão do mundo através deles. O paralelismo entre "O Anel do Nibelungo" e as mitologias grega e romana é evidente.

    A história da Adriana parte de factos que aconteceram na realidade em Paris no Séc. XVIII. Qualquer princesa insultada não hesitaria em mandar assassinar uma simples actriz.

    Bj.

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  3. Não é muito fácil ter uma boa relação com a ópera quando não se tem oportunidade de conviver com ela com proximidade, ou seja, vê-la ao vivo, e digeri-la, a música e a história! Por muito boa que seja a qualidade de uma aparelhagem de som fica sempre aquém, não é vivo, e não se vê. Não estudei música formalmente (conservatório) e sempre me apaixonei pela música quando a ouvi ao vivo. A única experiência com uma ópera vista ao vivo (Traviata) foi uma frustração porque a sala não tinha boa acústica e durante todo o espetáculo se ouviram os tacões dos sapatos no palco. Conhecia a música dos cds e só ouvi barulho. Não me apaixonei!

    Suponho que o conhecimento formal da música ajudaria, mas creio que com a maioria das pessoas acontece essencialmente uma relação emocional, antes da compreensão, ou ao mesmo tempo. Por isso hoje a ópera é um espetáculo de elites, ao contrário do que foi na sua origem! A época em que os temas começaram a ser mais profundos coincidiu provavelmente com este afastamento. E nessa altura já era tudo mais complexo, o acesso aos espetáculos, mas também a estrutura da música e a compreensão dos temas pelo público em geral.

    Com isto tudo não quero dizer 'mal', apenas que acho um amor difícil! (Isto ao som de Wagner, talvez explique alguma coisa!)

    Bjs

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  4. Jardineira, acho que tens razão. Eu também comecei a gostar mais de ópera, e de música clássica em geral, quando pude começar a assistir ao vivo. No entanto, sou um aprendiz e não tenho formação musical de espécie alguma. Mas ou se gosta ou não, e não vem mal nenhum ao mundo. Também, quando não conhecemos bem uma coisa, não podemos gostar dela. Por isso, vou insistindo com uns vídeos do youtube, vou partilhando. Espero que alguém vá tendo alguma curiosidade e goste das minhas escolhas, mesmo sabendo que elas são pessoais e possam não interessar a muita gente. E, quem sabe, um amor difícil pode tornar-se um grande amor.

    E quanto às histórias das óperas, é mesmo assim. Muitas vezes elas são mesmo ridículas, como as cartas de amor.

    Bjs.

    P.S. Quando é que há fotos novas no teu blogue?

    P.P.S. A Adriana Lecouvreur é mesmo uma ópera pouco conhecida. Só soube que ela existia através de um disco de árias da Callas.

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  5. Olá Paulo
    Não tenho acompanhado as novidades, mas voltei hoje e ao ver suas rosas, não pude resistir a fazer um breve comentário; a casa pode ter o seu charme e estoria mas menos interessante sem estas lindas irresistíveis e perfumadas rosas. abraços.
    Lúcia

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  6. Lúcia, é um pedacinho romântico que ali está. Eu gosto dele, apesar de estar a cair...

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  7. Como sempre que me dá esta verborreia na ponta dos dedos esqueço-me de dizer às pessoas que venho aqui porque gosto! Fazes muito bem em partilhar as tuas preferências, porque sempre saímos daqui mais ricos do que entrámos!

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