3.10.07

Anne Sofie von Otter - Scherza infida

Uma das gravações de referência da ópera "Ariodante", de Handel, é a de Marc Minkowski, com Anne Sofie von Otter no papel titular. A acompanhá-la está a orquestra Les Musiciens du Louvre.
Scherza infida, que podemos ouvir em baixo, foi a primeira ária que Kasarova cantou no concerto de abertura da nova temporada do Teatro de São Carlos.



Marc Minkowski

Ariodante é um exemplo típico do "papel de calças"*, cantado normalmente por mezzo-sopranos (ou por contratenores). Foi criado em Londres pelo castrato Carestini, que se celebrizou pela agilidade e extensão vocal, mas que também deve ter possuído grandes capacidades dramáticas, a julgar pelo modo como Handel compôs esta ária em que o intérprete de Ariodante exprime o seu desespero e os ciúmes, após descobrir a suposta infidelidade da sua amada Ginevra.

Scherza infida in grembo al drudo.
Io tradito a morte in braccio
Per tua colpa ora men vo.

Ma a spezzar l'indegno laccio,
Ombra mesta, e spirto ignudo,
Per tua pena io tornerò.


* Os ingleses chamam trouser roles às personagens masculinas interpretadas por vozes femininas.

8 comentários:

  1. Obrigada por me ter apresentado esta versão... Bonito, a parte orquestral está realmente imaculada... mas eu realmente tenho um "problema" com a Von Otter (ou com o vibrato dela...) no barroco... gostos... confesso que continuo a preferir a voz da Kozená nesta ária (principalmente na interpretação ao vivo que ela fez na Gulbenkian).

    Moura Aveirense

    ResponderEliminar
  2. Pobre inocente, subitamente enredada num pesadelo de culpa e desgosto! Ciúme e intriga de todos os tempos, contra a justiça e o afecto, a arma branca que trazemos ao peito e com a qual conquistamos os finais felizes das belas histórias... O castigo, o reencontro, o perdão. Aqui, Ariodante brutalmente ferido pelos dentes da traição, jurando vingança! Belíssima, a interpretação, assim a ecoar pela minha longa noite adentro! Por meros momentos, tudo parece estar bem! :-)

    PS - Também te li sobre a Seaside Manhoe (gostei assim). A 1ª imagem de todas é especialíssima! :-) Só faltava mesmo a melodia à altura! ;-)

    PPS - Da Papoila para aqui, hoje foi um pulinho! :-P

    ResponderEliminar
  3. Esta minha nota não virá nada a propósito do conteúdo e da intenção do post mas vou arriscar a deixá-la aqui escrita.
    A Música. Gosto muito de música, mas tenho que admitir que, não tendo educação de base que me tenha instruído nesta arte, não me sinto à vontade para tecer considerações ao nível deste blogue. Mas não me escusarei a meter a colherada sempre que me sinta para isso motivado.
    Quanto ao que aqui me trouxe especificamente. Tem a ver com um comentário recente no "dispersamente". A estátua do Papa Paulo VI está situada na parte baixa da cidade de Leiria, mesmo ao lado jardim Luís de Camões. Foi mudada de sítio...uns metros mais ao lado e com o Papa a olhar mais para poente...
    http://dispersamente.blogspot.com/2007/02/futurismo-passadista.html
    Neste endereço pode ler-se e recordar uma tulipeira que aqui tínhamos, bem perto...centenária. Penso que se podia tê-la deixado viver mais uns anos (se acaso ela não estivesse de saúde) até as outras crescerem.
    Um abraço
    António

    ResponderEliminar
  4. Obrigada paulo, esta versão é lindíssima. Comprei o Ah! mio cor da Kozená, que também inclui esta área e que me encanta.
    Apetece-me parafrasear um anúncio televisivo qualquer (da tv cabo, acho eu) e dizer. "Há vozes fantásticas, não há?"

    Só um comentário ao as-nunes: alguns arquitectos demonstram uma falta de sensibilidade para as velhas plantas... Ainda bem que os madrileños se amotinaram perante o desígnio de Siza Vieira de abater 700 árvores no Paseo del Prado!

    ResponderEliminar
  5. Esta música e a flor debaixo fazem uma combinação perfeita!

    Fica um pouquinho a destoar, mas queres conhecer um verdadeiro génio da música contemporânea? Vê aqui: http://www.youtube.com/watch?v=TZ860P4iTaM

    (Completamente a destoar, é certo. Vou sentindo enquanto ouço. Mas vale pelo sorriso!)

    ResponderEliminar
  6. Por motivos "meus", fazem os meus olhos as vezes de ouvidos. O que recordo ficou, nomes, pequenos nadas. A formação não a tenho, excepto que desde sempre em casa se ouvia a "Maçadora Nacional" na estação de música clássica, porque não se gostava de futebóis e salazarentos. Assim as transmissões em directo do Teatro Nacional de S. Carlos, anos 50 e tais. Como quando veio a Maria Callas cantar La Traviata em 58 e a pompa das tosses dos "iluminados" exmos. Por vezes tropeço em pérolas antigas: "As danças guerreiras do Principe Igor" por ex., a voz de Yma Sumac como uma flauta andina, o cravo bem temperado, o arrastar pungente da voz de Beniamino Gigli... Educação sofrível mas suficiente para amar. Ah...pois, não ia falar disso mas do batido em natas dessa flor que apetece comer. Uma roda de saia em palco de ópera, com bruma de morango dentro. Bela, Paulo (e os bardos também precisam de heróis para se inspirarem...). Obrigada. Abraços

    ResponderEliminar
  7. Sabes bem o quanto gosto de S.Von Otter e de Handel. Assim, acho excelente ideia este post. Embora também cá tenha esta mesma gravação, há já muito que não a ouvia... Ele é tanta coisa...
    Bjs.

    ResponderEliminar
  8. Moura e Gi, também gostei muito da interpretação da Kozená na Gulbenkian, assim como no disco. Mas há paixões que não se explicam, eu tenho esta por Anne Sofie von Otter.

    Apc, fico contente por as minhas escolhas musicais fazerem companhia a quem visita o blogue.

    António, fui ver o sítio e já consegui identificar mais ou menos. Pode comentar sempre que a sua vontade o queira, goste ou não das minhas músicas. Quanto ao abate de árvores, veja o que diz a Gi.

    Jardineira, não destoa nada. Fui lá ver e aquela gata pianista é encantadora. Toca com um grande sentimento e ouvido para a música. Veja-se a delicadeza com que ela põe a cabeça sobre o piano e como procura as teclas para fazer o acompanhamento em contraponto.É uma delícia de que parece que alguém já se está a aproveitar.

    Bettips, também acho que se pode aprender a gostar de música sem que se tenha tido uma educação musical nesse sentido. Eu não sei ler uma nota, mas tenho uma amiga que estudou piano, incentivada pelos pais, e não gosta de música clássica.

    Cigarra, enquanto fazia este post também pensava em ti e no teu gosto por Handel. Parece-me que foste tu quem me apresentou esta gravação.

    Obrigado a todos.

    ResponderEliminar